26/08/2008

19/08/2008

intervalo

image by Laura Splan

1ª conversa ou " não falemos sem alicerces"

my friend william-zimpel- by william-zimpel


A - Minha querida, a verdade é a última posta de um peixe que ninguém quer comer .

Ela- ... E fica na travessa.

A - Ahahhah . Isso depende da dose servida de mentira. Se não bastar para satisfazer ventres mal nutridos... Bem. Que achas? Comerão a verdade?

Ela - Nunca passei fome real, só apetites insatisfeitos, na hora. Dou, no entanto, em crer que se come de tudo. Quando a Fome é Nome.

A - Para a política é exactamente igual. Compara - Já tens idade que baste para isso...

Ela - Gostei de te ouvir. Excepto a parte da idade. Era evitável.

(Porra! como me pesa no pensar!)

A - Nunca fizemos fitas. E isso agora?

Ela - Estava só a brincar. Se tenho de morrer, antes morrer a rir do que a chorar.

18/08/2008

rio? do meu sangue?

blood waves by Garry Glenn


fiz surgir vida ou morte? ____ nos caminhos

chagas minhas derramaram ____ sangue ____ que coaguala ou corre


como vida que foi


dizem - é o teu sangue. - não é. posto que o dei à terra

vindo de tantas feridas


que não as sei contar ____ nem por palavras



sei ____ vagamente ____ que uma dessas feridas me matou


quis ser fatal ____ quis ser ____ quis!


para viver precisou de matar



sei ____ vagamente



o sangue dei-o todo ____ ou quase


como pode ser meu?


vá. corre sangue. como de antes. nos canais de mim


fecharei as veias ____ quero fechar as palavras ____ outras feridas


corre para que possam dizer ___ já em verdade


que fui.



importa se ainda sou?

14/08/2008

turista de mim

Jurumirim by Fernando de Amorim Mascaro


é tudo transparente


a vida é boa


as gentes sãs


o mundo vive em Paz



não. não enlouqueci


é que hoje sou turista nesta Terra


tenho olhos novos para tudo o que me cerca




passei beirinha a ti


terás notado?


nem isso é importante


o que me importa é o sabor a sol


que sem saberes

me deixaste

na boca

10/08/2008

só é Poeta quem sobe

whitetop Photo by Joe Tennis


cada estrada cada ponte

qualquer rio ou uma fonte

leva o Poeta às estrelas

o brilho delas é dele

joga no céu às palavras

cruzadas dentro da pele


as palavras planta-as ele

nos canteiros dos seus nervos

tensos arcos para a flecha


que atira aos corações

de quem só vê uma estrada

uma ponte rio ou fonte

onde o Poeta reconhece

pelo nome as estrelas brilhantes

que iluminam os poemas

que ele empresta à Humanidade




09/08/2008

o que em mim ferve

image by Mike Burdic


é subterrâneo tudo o que em mim ferve.

sou como um poço de águas sem inquietação. na aparência. onde se lança o balde, inclina, enche e lança de novo. um infindável poço onde a água deve ser eterna.


deixo ingenuamente as palavras subir à superfície. mansas como algas macias ao tocar. não tenho intenção de comunicar nenhum sentido que sirva à vida alheia.


se tenho, é subterrâneo como tudo é em mim.


nasci a contragosto de quem me viu nascer. sou mulher subterrânea já que era homem o que devia ter surgido no mundo. no dia nove de um ano terminado em nove de um novembro qualquer.


então desci, com os homens meus irmãos, às cavernas das minas que as mulheres em regra desconhecem. (não se iludam. as jovens. ainda hoje elas lhes são vedadas. há rituais para poder entrar lá. os homens são tão misteriosos como as mulheres. de diferente maneira. apenas isso.)


aprendi com eles o guardar de segredos. a partilha diferente. sem cobrança (nesse tempo). o não falar de dores. do tempo. do preço das cebolas ou da roupa a passar.


subterraneamente cresci outros temas em mim - revolta. liberdade. trabalho. luta. literatura. futebol. clandestinidade. riso. camaradagem. amores.


hoje tudo ainda ferve (em lume brando agora) no poço de aparência ingénua e calma.



BoilingMud_ at www.caboose.org.uk


com o tempo foram atirando desperdícios para o fundo do poço. calúnias. lixo. pensamentos vazios. nulidades de vida. a inveja de quem se mirava na água do poço e fazia a pergunta da madrasta má da história de infância - espelho meu. espelho meu... - até isso afundaram na água calma. na aparência.

mas em mim tudo ferve.

a água tantos anos a ferver deu em evaporar. sobra lama em ebolição à beira de saltar do poço. atirar fora à vista de quem passa o lixo com que me encheram a vida.


que era água. a ferver. subterraneamente.


05/08/2008

agora que estão todos na praia da Rocha, que a Caparica já passou de moda, conto anedotas.

image at Fotosearch.


ora. fumava-bebia-sorvia-saboreva o socrático cigarro. legal. bem merecido. ao ar livre. (isso pensava eu. essa. do ar ser livre...) quando, ao abrir os olhos, tive a sensação de me terem ganzado o ritz do costume.

- será que os passadores de droga inventaram uma nova para por o pessoal a começar a consumir? - pensei. fechei e abri de novo os olhos. ná. aquilo não era alucinação. aquilo ainda estava lá. aquilo tinha pernas. aquilo era quadrado. encarnado e preto e tinha pernas. aquilo escurecia o sol. aquilo era inestético até para o fumo de um cigarro. aquilo, sobretudo existia ainda no meu campo de visão. visão turvada. muito mais para quem visse aquilo.


Red and Black by AristiEstes


olhámos todos (os fumantes da hora). aquilo podia até derramar-se e poluir o Tejo. é que a mancha quadrada crescia. não se sabia o que crescia mais. o encarnado? o preto? que maré nos viria se aquilo chegasse até às gaivotas do rio?

por fim o alívio. o quadrado com pernas desapareceu por uma porta onde cabia (mal). o sol rebrilhou. reaqueceu. o Tejo respirou de alívio. as gaivotas entoaram hinos como se fossem melros.

eu? eu acendi outro cigarro (à revelia de sócrates e do patrão) para acordar do pesadelo. para esquecer. mais uma vez. aquilo.

03/08/2008

gata em muro fresco

foto by Stanislav Petera


o dia era de sol. indesmentível.

as gentes sorriam com um riso aberto e dentes de verão.

(a saia voava à brisa do rio)

sorria de volta. bom costume meu.

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a mulher na frente falava vazio

corpo seco. voz ansiosa de tudo. um protesto eterno


na boca franzida. falava. falava.


a água no copo quase aquecia. à voz de revolta.


vazia ela toda. costumeira já


eu fingia ouvir. fixava a distância com os olhos doridos


que de tanta luz pedem para dormir.



vi-te. ou ao teu vulto


não me enganaria - silencioso andar de gato siames


e ela falava. a água do copo dormia entre os dedos


que só desejavam estender-se para ti.


ficou-me o aroma da passagem breve


e a voz que deixaste no toque fugaz.


a mulher creio eu que calou por fim.



corri para o meu canto. depois para a rua


ânsia no esperar pede tanto mais!


procurei nos muros refrescar o cio


é só o calor. passa com o verão


miou para si própria a gata que sou


um miar gemido


repetido e oco.


sem convicção