09/08/2008

o que em mim ferve

image by Mike Burdic


é subterrâneo tudo o que em mim ferve.

sou como um poço de águas sem inquietação. na aparência. onde se lança o balde, inclina, enche e lança de novo. um infindável poço onde a água deve ser eterna.


deixo ingenuamente as palavras subir à superfície. mansas como algas macias ao tocar. não tenho intenção de comunicar nenhum sentido que sirva à vida alheia.


se tenho, é subterrâneo como tudo é em mim.


nasci a contragosto de quem me viu nascer. sou mulher subterrânea já que era homem o que devia ter surgido no mundo. no dia nove de um ano terminado em nove de um novembro qualquer.


então desci, com os homens meus irmãos, às cavernas das minas que as mulheres em regra desconhecem. (não se iludam. as jovens. ainda hoje elas lhes são vedadas. há rituais para poder entrar lá. os homens são tão misteriosos como as mulheres. de diferente maneira. apenas isso.)


aprendi com eles o guardar de segredos. a partilha diferente. sem cobrança (nesse tempo). o não falar de dores. do tempo. do preço das cebolas ou da roupa a passar.


subterraneamente cresci outros temas em mim - revolta. liberdade. trabalho. luta. literatura. futebol. clandestinidade. riso. camaradagem. amores.


hoje tudo ainda ferve (em lume brando agora) no poço de aparência ingénua e calma.



BoilingMud_ at www.caboose.org.uk


com o tempo foram atirando desperdícios para o fundo do poço. calúnias. lixo. pensamentos vazios. nulidades de vida. a inveja de quem se mirava na água do poço e fazia a pergunta da madrasta má da história de infância - espelho meu. espelho meu... - até isso afundaram na água calma. na aparência.

mas em mim tudo ferve.

a água tantos anos a ferver deu em evaporar. sobra lama em ebolição à beira de saltar do poço. atirar fora à vista de quem passa o lixo com que me encheram a vida.


que era água. a ferver. subterraneamente.


13 comentários:

della-porther disse...

"Por vezes minha leitura, sua escrita, se perde ...vou no subterrâneo para entender. me esforço. Ah! se me esforço. Até que eu possa levar no sentido do paladar o gosto de ter entendido".

um saudoso abraço, se me entendes.

sua a filha da
orgulhosa de ler-te.

della

Madalena disse...

Entendo-te Della. Afinal já nos lidamos há anos. Esqueceste?

:D

Beijo grande

della-porther disse...

Como esquecer esses anos de prazeirosa convivência.

beijo grande

della

vai dar tudo certo.seus olhos vão me enxergar.

D. disse...

Vim ver a ÁGUA DO POÇO.

meus respeitos

D.

poetaeusou . . . disse...

*
non
,
como eu,
sou incapaz de te compreender...
,
jino
,
*

Madalena disse...

olá poeta. não te incomodes a compreender. tinhas de ir ao subterrâneo, como a Della. E não vale a pena. Por enquanto.

Bjs

bJS

Madalena disse...

D, você deve ser genial conseguiu ver água onde só deixaram lama. lol

D. disse...

Vim ver a Senhora dos Rios Desiguais.
vejo água,rsrs

D.

Madalena disse...

E já gozas lol

José António disse...

.

Olá Madalena,

Vim cá ter a partir duma indicação num mail da Menina Marota.

Gostei,
Vou 'linkar' no meu INSTANTES.

bjs

.

Madalena disse...

Obrigada, José antónio. A Menina Marota é marota mesmo. Fez-me publicidade gratuita. :)

Volta sempre.

Maria Clarinda disse...

E a Menina Marota também me fez conhecer o teu espaço que adorei!!!Fiquei tempos, li-te, reli-te e saí maravilhada com as tuas palavras.
Obrigada pelos momentos...voltarei mais vezes!
Jinhos mil

gabriela rocha martins disse...

como se tu alguma vez ou em algum lugar precisasses de publicidade ,que madre!.............


.
um beijo