31/12/2007

hoje, 31 de dezembro de 2007


image by Estelle Judah

hoje gravo o que escrevo como se fosse o último dia a respirar.
hoje vou-vos contar:

- vivi por oito anos beira à morte num abandono de ninguém explicar

replecto de silêncio conveniente. o silêncio a esperar de quem é civilizado

e louco ao mesmo tempo - vejam lá...

silenciei.

pelos filhos. pela memória do homem que lhes deu o nome e por mim.

(por mim? mentira e, eu não sei mentir!)

louca? sim. não mais que muita gente sou e medicada e tudo, por isso, controlada.

mas hoje vou deixar de tomar os comprimidos (a pílula prateada. ahaha!)

hoje prometo aqui não voltar a pensar em suicídio só para ficar calada.

que se dane quem para aí me atirou (e foram vários!).

um louco não é parvo, desenganem-se. um louco só olha, muitas vezes, frontalmente, o que os de mais tentam olhar de lado por medo - o branco-medo da cegueira.

image by madalena pestana


hoje, agarrando com força um pedaço da terra que te acolheu, meu Homem, e me acolherá, juro:

este ano, poderá ser o último. poderei ir viver baixo a uma ponte pelo que disser ou o que fizer, mas ninguém, nunca mais me calará!

voltarei a ser a mulher que conheceste e amaste - de sempre a sempre - lembras?

então assim será!




(escrito a pensar apenas, ou quase, em Nuno de Bragança)

18/12/2007

Felicidades!

Imagem de Frederic Larson


Entra uma luz forte no nevoeiro. Dizem-me que é Natal

Não entendo mas sou de acreditar. Vejo as lojas pejadas. Os embrulhos

as crianças ansiosas numa espera de não acabar mais

É Natal. Tem de ser. Ainda lembro – tanto sonho!


Envelheci. O sonho esbate-se com a cor dos cabelos

Não há Menino Jesus pela chaminé a encher o sapatinho de bonecos

(ah, e muito menos Pai Natal! Com metralhadoras made in China)

Nem renas, nem sininhos, nem neve a cair sem estrondo no presépio.


Sempre que vejo esperança em olhar alheio, arrecado-a no meu

à laia de presente roubado, que a Esperança não é coisa de comprar...

Também olho os sem Esperança, a esses passo a minha, acabadinha de roubar

O meu Natal é só troca de Esperança. E haverá melhor coisa para trocar?




Madalena Pestana

PS - este blog entra de férias até para o ano que vem. :)


16/12/2007

o prémio


Este prémio não tem regras porque tenho uma particular simpatia por ovelhas negras. assim, os felizes contemplados são livres para fazerem o que bem entenderem do selo, colocá-lo no vosso sidebar ou enviá-lo para o cesto de reciclagem do Bill Gates. Como sou adepto da Liberdade e avesso a injustiças e regras demasiadamente castradoras, o prémio "este blog é porreiro, pá!", pode ser distribuído a 1. 5. 7. 10. 20. 100 blogs ou de distribuição ilimitada. Assim como a anarquia reina neste texto, podem escrever os vossos livremente. (*.*)


prémio "este blog é porreiro, pá!" Distribuição ilimitada...


    o Adesenhar atribuiu este prémio a vários blogs. Também a mim calhou.

    Aceito com orgulho, é que confesso, sou PORREIRA mesmo.
    Quem também achar que é, passe por lá para ver se não se esgotaram ainda os prémios. :)


    Obrigada
    Adesenhar. ÉS PORREIRO!

    12/12/2007

    chamaram-lhe Poeta...

    image by Reynolds


    chamaram-lhe poeta. não olhou. obviamnte não era com ela.

    ficou-se a pensar na palavra. no conteúdo do que será ser poeta.

    "é ser mais alto" diria a Florbela. para ela era ter pernas mais compridas

    para brincar às escondidas com a vida e com todos os sonhos por viver

    para ela era conseguir saltar no escuro deste lado para o lado mais obscuro

    sem medo e de preferência a rir. não. não era com ela que falavam

    era com a ilusão criada pela rima. pela a métrica às vezes. pela sonoridade




    poeta? poeta é ser feliz sem o saber. e isso ela nunca foi capaz de ser.

    30/11/2007

    cantiga da pena à morte

    © Jessica Winder

    eu tive uma pena que não fiz voar

    e chorei um rio que não foi regar

    abri uma fonte não deu de beber

    fui amada às vezes sem agradecer

    tive solidão não escrevi poesia

    soltei gargalhadas sem ter alegria

    cruzei as palavras sem nada dizer

    lavrei orações sem acreditar

    olhei o teu rosto sem o afagar

    (só cravei as unhas nas palmas da mão

    quem não é amante tem de ser irmão)

    confesso, não sei sequer se vivi

    de tanto que queria e não consegui



    eu tenho uma pena branca de luar

    replecta de gotas prontas a regar

    nem rego nem voo, fico a contemplar

    dou a pena à morte, está quase a chegar

    ela há-de saber a quem a passar



    é tão velha a morte, bem de antes dos vivos

    talvez nela encontre mais cinco sentidos...

    28/11/2007

    Intervalo

    at luminous-landscape.com

    Nuvem Passageira

    Eu sou só
    E estou só
    Só serei seu se for só
    Eu sou só

    Eu sou nuvem passageira
    Que com o vento se vai
    Eu sou como um cristal bonito
    Que se quebra quando cai

    Não adianta escrever meu nome numa pedra
    Pois essa pedra em pó vai se transformar
    Você nao vê que a vida corre contra o tempo
    Sou um castelo de areia na beira do mar


    lyrics by Karmak


    "Estamos todos sós por baixo da nossa pele"

    25/11/2007

    só porque olhei...

    é o tempo de olhar.

    de olhar para ver. para o lado para baixo. se não olho para baixo tropeço nas pedras abandonadas na cidade. esta cidade onde me exilaram.

    olho para o lado vez por outra. gente. gente cansada. desalegre. desfeita de cansaço e fim de esperança.

    o filho desejado por haver. o dinheiro não estica e há as prestações do carro, da casa, da viagem que se fez pelo direito a ser primeiro mundo. o banco a oferecer facilidades. tantas. mas o juro subiu. a mulher ficou sem emprego. agora... agora é Natal. quase. lá vem a obrigação de festejar.

    o Natal. a minha hora de temperar a comida com mais umas gotas de angústia e dar doces à cadela e partilhar com ela a ceia melhorada por hábito. festejar? mas o quê se a alma se me escapa ao olhar para o chão onde jazem os meus mortos. os que tive a cobardia de não acompanhar.

    mas de que é que eu falava afinal? das gentes e da festa por vir. dos presentes pagos a prestações comprados nos vendedores de ouro no emprego ou a cartão de crédito, a obrigar ao sufoco por um ano mais.

    depois é recomeçar a dieta de sopa e queijo fresco ao almoço e fazer uma massa para o jantar com carne picada para a família...

    - achas que a tua mãe gostou do presente?

    - claro, querida, adorou!

    do outro lado:

    - isto foi comprado nos chineses. aposto que para a mãe da outra foi ao centro comercial. e andei eu a gastar uma fortuna em presentes para eles.

    presentes estão. mas como? no natal.

    Cristo, explica-me tu o que é natal!

    ao pensar nisto elevei o olhar. caí. tenho um joelho numa desgraça só. fractura não houve. bem, é porque a maça óssea não está má. poupei a fortuna de uma radiografia.

    milagre de natal.

    19/11/2007

    chuva no deserto

    thirsty by Dario Menasce


    a chuva chega a aliviar o caudal seco do rio dos meus nervos

    há uma solidão de pedra nas gentes em volta. o cinzento traz isso

    a quem ama a cidade e o cimento-cerco onde me perco como num deserto

    respiro lento. bebo a humidade como as árvores empoeiradas de obras

    gordurosas de óleos sufocadas de gases poluentes. respiro.


    - lembro-te

    pouco nos importava que chovesse e desabasse o mundo sobre nós

    tanto se nos dava que fosse o sol escaldante nos areais sem norte

    criávamos oásis ou abrigos com a imaginação

    dadas que estivessem as mãos nada nos impedia de seguir rastos de água


    - lembro-te

    meu rio de sangue-vida. meu bordão de viagem. meu senhor e meu pajem

    lembro-te e volto ao nosso rio sem rumo ou sequer margem

    entro nele e mergulho sem saber quanto futuro ainda há por vir

    só sei que estarás comigo até ao fim mais do que eu pude estar

    morrerei a sentir e a amar. farás comigo a última viagem


    - lembro-nos e sorrio


    no corredor alguém diz em voz alta que faz frio – eu não o sinto...

    viverei ainda no mesmo planeta ou persigo-te já na cauda de um cometa?

    14/11/2007

    na boca

    DeWeese Photographic Arts


    embrulho-me em mim mesma como um gato na noite
    não olho já em volta. estou cercada a frio e abandono
    nada tem sequer a concisa dor do açoite
    não me sobra ao menos o socorro do sono

    lateja-me na cabeça o sangue, então há vida sim
    não fora isso e não tinha a certeza de estar entre os demais
    onde me abandonaram até que me esquecesse de mim?
    não quero recordar. quero viver sem penas como os animais -

    na boca da noite na boca do medo na boca da morte
    na boca do grito na boca da fonte na boca do vento
    na boca do fim na boca do riso na boca da sorte
    na boca do sexo na boca sem nexo da boca do tempo.

    13/11/2007

    Hoje. O dia de Emília.

    from Northern Images Photography


    hoje o rio não é tortuoso. assim o quero

    querer é poder. se exagero, exagero.

    mas não me tirem um calmo rio de paz. por hoje, não!


    amanhã tanto faz.

    já estou acostumada ao torbilhão

    mal sei viver sem ele, francamente.


    mas hoje é urgente um rio manso digno de outra gente


    daquela que tem ainda de acreditar

    que é amada até por quem pensa que perdeu.


    hoje é dia de ser amigo de quem

    nos guarda o sono na distância

    brinca connosco como se fosse infância

    este absurdo acto de ter de envelhecer


    hoje vento, não sopres tu o rio

    deixa-o correr de mansinho até se pôr o sol

    dá-lhe só uma brisa de carinho

    até que a noite desça e o dia passe.


    amanhã? amanhã estou de novo dentro de água

    a nadar até que me canse

    até que dance, se quiseres, a dança da morte

    para apagar de vez a mágoa

    a tal que hoje vou esquecer


    dê lá por onde der !





    12/11/2007

    duas frases soltas do caderno

    image by Janusz Miller

    que importa que os lençóis sejam de linho se está desabitado um corpo de mulher?

    pode ela seguir qual curso de água se na vida, como no inverno, não chover?

    10/11/2007

    cumpre a promessa, Homem

    image by Miru Kim


    desempenhei mais papéis do que a memória comportava.

    desci túneis que não conhecia. tropecei e caí vez após vez

    no escuro. no escorregadio da água pouco clara


    a noite que vivemos tinha tão pouco riso. doía-me o silêncio

    mais que os joelhos rasgados nas quedas de não saber viver a personagem

    que a cada dia tinha de mudar para acertar o passo ao teu jeito de ser.


    depois paraste. tinha de ser assim. sabias tu e eu. a vida tem limites

    como a pele

    não podemos esticá-la a infinito sem risco de romper


    partiste madrugada. assim fazias quando tinhas pressa de chegar

    não levaste bagagem e nem disseste nada. quando eu visse. veria

    para quê incomodar?



    surgiram mais papéis para decorar depois que descansaste

    alguns eu mal sabia interpretar. cansei demais. veio a vontade de seguir-te

    não podia. havia os "nossos putos" por criar, homem das águas


    e lá segui meio a crianças e traições até que uma mulher me fez morrer

    estou , entre papéis, amor, tu sabes. e já nem os papéis sei arrumar


    Estou sentado num dancing e tenho a mão. Ainda em volta de uma bebida de pressão de ar.*



    ann-hamilton-much-paper


    dispara essa bebida e corre a ajudar. afinal era o que estava combinado

    se houvesse um outro lado onde poisar.


    * Nuno de Bragança in a Noite e o Riso



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    este post vai ter de servir como resposta ao desafio do Espreitador. não passo a ninguém porque sou contra-correntes.

    07/11/2007

    aniversário

    image by Part Gibson

    juventude de querer matar a vida. não suicídio. a vida totalmente. não a pedi e deram-ma sem querer. não entendi. nunca hei-de entender. ser mãe tem de ser acto cúmplice entre quem concebe e quem está por nascer.

    assim o foi comigo por três vezes. assim seria tivessem sido seis.

    mas não nasci assim. olharam-me e pediram perdão por eu ser mulher. como se mais importante do que um filho, fosse o agrado ao marido que desejava um homem para lhe manter o nome à flor da Terra.

    ele sorriu. contaram-me cem vezes e condenou-me à exclusão por dizer, o santo poeta - não faz mal, Maria , ela ainda é mais bonita que a primeira.

    não era isso que ele queria dizer, mãe. não entendeste. queria só aliviar-te do desgosto de não ser eu o rapaz desejado. não era dizer mal da filha que criavas há mais de dois anos o que queria. que é isso de ser bonito, mãe? todos os meus filhos são os melhores do mundo. Mãe. entende agora. ainda é tempo!



    image by karlc

    por isso estatifiquei a correr para ti, pai. e hoje a dois dias da data que nunca celebro, arranco os pés do chão na esperança de chegar a tempo de te abraçar no dia exacto do meu aniversário.

    aí pesca-se, pai? aí há circo e bola? e manifestações proibidas onde irmos escondidos para não ralar ninguém? aí há barbeiros que cortem o cabelo à la garçonne para voarmos de moto, a seguir, sem cabelo a estorvar?

    mesmo que não haja nada disso, deixa-me ir abraçar-te pai. tenho tanta saudade de te sentir amar-me!

    sabes pai, o mundo está doente e eu ando tão perdida no meio de toda a gente...

    05/11/2007

    intervalo até que chova

    Friedensreich Hundertwasser


    dentro da minha cabeça.


    neologismos ou é só educação!



    photo by Darlyne A. Murawski


    dê lá por onde der (falta de imaginação ou de fortuna) a gente passa a maior parte do tempo útil de vida, onde trabalha. os que nunca pagaram nem pagarão impostos trataram de alongar-nos isso mais. não faz mal. até gosto do onde estou e de alguma da gente que há por lá. afinal já lá vão vinte anos de convivência, nalguns casos de amizade real.

    mas isto vem a quê?

    vem de um neologismo que aprendi outro dia à saída da consulta da médica (sim, que nós temos essa excelente coisa de não sermos obrigados a ir ao centro de saúde por consulta - ganhamos nós e os patrões, é óbvio).

    é certo que na casa se praticam os aumentos tipo função pública, isso eu sabia já. o que ainda não sabia e, constatei, é que quem avaliava a necessidade ou não daquela medicida (que não é a de trabalho) era um técnico alheio à área da saúde. técnico cuja formação eu desconheço. mas lá que é técnico é. e pronto, a vida é assim mesmo. com jeito toda a gente sobe menos eu. não tenho jeito para essas coisas de subir.

    já me alonguei demais. é assim em todo o lado. cada um tem o país que permitiu.

    o que aprendi foi o verbo melgar.

    no fim de várias consultas. a última foi a minha, sai um génio do seu gabinete e interpela a doutora:

    "temos de conversar!" assim, sem mais aquelas, qual patrão a ameaçar processo.

    os outros colegas a escutar e... eu. é só educação!

    que não podia ser, demorar tanto tempo a atender "quem vem para aqui melgar" (sic) "ou se está doente precisa de ir a outro lado" (sic). e outros mimos de polidez e de responsabilidade.

    a médica ainda balbuciou se deveria usar uma ampulheta para contar o tempo e despachar pessoal.

    ele nem a ouviu. a bilis tinha-lhe subido à verve e melgou a senhora até se cansar.

    se ali houvesse alguém cheio de saúde e respeito por si, adoecia só de o ouvir.
    mas se a melga era eu, estive tão à beira da ferroada, que só a paciência que a idade me deu e, sobretudo ele estar fora do campo de visão, me impediram de lhe espetar o ferrão na língua mesmo.

    deram-me as receitas carimbadas e voltei ao trabalho, mas a pensar.

    - será que vamos imitar a função pública em tudo o que ela tem de pior e pôr a conduzir a arte de curar, gente que tudo o que sabe é usar calão e obedecer a his master's voice?

    só os próximos capítulos o dirão.

    mas pelo sim pelo não quando voltar à médica, levo o dum-dum, o tal que mata que se farta, porque para zumbidos daqueles o Raid casa e plantas já é completamente ineficaz.

    image from nyholt

    ou o ainda de melhor efeito - zaz!

    02/11/2007

    mas eu quis ser tanta coisa!

    imagem de J.Roumagnac

    falo sempre do que sei ou sou. não sei falar diferente.

    mas há coisas que ficam pelo caminho por dizer. coisas da vida mas da outra gente

    coisas que encontrei nas águas bem à tona. tão superficiais que nem a água as quis

    serão profundas de outros? que sei eu?

    se nem sei se as árvores quando morrem correm para o mar

    ou se nasceram dele e lá regressam como a um berço antigo...


    não sei nada. é por isso que só escrevo do que sei ou sou

    daí o pouco encanto. daí a repetição inevitável.

    se ao menos me atrevesse a escrever sobre tudo o que nunca fui

    mas que quis ser.


    29/10/2007

    adiante


    Water_by_TheEveningStarLenore

    embravecida a água salpica-me o rosto quente ainda de raivas que passaram pelos vasos sanguíneos a regar-me o cérebro. que bom!

    que boa a água! que bom libertar raivas que marcaram por anos, o dia a dia que eu queria de paz! que bom distanciar-me agora disso tudo como nos separamos de tralha velha, a atrair traça no sótão lá de casa. tanto espaço nos sobra! era urgente fazê-lo mas teve de ficar sempre para amanhã.

    teve de ser. não por feitio meu.

    agora? agora o rio da vida corre quase como dantes. quase. que as águas nunca se movem para trás e ainda bem.


    image by Ramūnas Danisevičius

    salto do rio para o mar. voo de ave-gigante. com o corpo para a frente. liberta do passado. o futuro é adiante.

    há deus ou há justiça! o nome tanto faz.

    27/10/2007

    filho, eis o teu pai.

    image by Eric Boutillier Brown


    vi-te enfrentar mares enfurecidos
    como se a vida tivesse começado ali

    querias um filho como quem quer o céu

    e por ele deixaste o vício-morte
    e por ele me amaste a cada canto
    a cada hora fértil. como os animais
    que são sábios a preservar a espécie

    vi-te vê-lo chegar como rei orgulhoso
    que pode dar ao povo o sucessor
    como se fosse o teu filho primeiro

    se pudesses tê-lo-ias parido
    (isso se os homens suportassem a dor)

    escrevo isto a rir como naquele instante
    em que o ouvi chorar com um alívio enorme
    ah como a dor já me estava distante !

    homem do mar, por ele foste forte.
    e eu voltei a ser o que nasci para ser
    apenas mãe
    esse nome carregado de vida. até à morte.

    memórias que não pesam


    um título. um poema, nos papéis de Maria. umas palavras antes.

    image by Konrad Ciok

    não me roubem as memórias por favor. não tenho rosto já. mas sei ainda muito bem quem sou. o de onde vim e o para onde vou.

    o Estudante Alsaciano. decorei de rajada depois de querer entender palavra por palavra. nunca fui papagaio. disse-o muitas vezes. com raiva. quase a sentir o pai morto na guerra. sabia o que dizia e aonde ia. não me arrastaram a lado nenhum.

    havia o Lenine, na Quinta da Lomba. tinha um pai enlouquecido pela pide e eram, claro, comunistas os dois.

    enquanto a rapariga das tranças fingia gostar de bordar e escutava a mãe entre panelas e feijão verde, desvendávamos matas, o Lenine e eu.

    - madalena, amanhã aquilo pode ser perigoso. não para vocês. mas para mim pode e muito. o teu pai quis que soubesses ao que ias ou não irias mesmo. tens a certeza que queres ir?

    - é pela liberdade. quero e vou!

    enquanto eu batia a mão no peito no final do poema, com a força de quem ama a terra onde nasceu, os homens batiam palmas. poucas mulheres mas também as havia. expressões duras.

    lá em baixo, na cave, o Lenine português e os outros, corriam risco de ser presos. eu sabia. não depois. na hora. naquela hora. voltámos pelo esgoto abandonado desde o Lavradio até a casa. os homens murmuravam. estava escuro e eu tinha sono já.

    algum tempo depois, o meu amigo foi preso. quis ver-me, na cadeia. vim a Lisboa com a mãe dele. à capital pela primeira vez e a visitar um preso. depois disso não o veria mais. tive pena. fazia muito bem pernas de rã que apanhávamos nos charcos.

    teria ido viver para a Rússia foi o que constou nas bocas das mulheres. baixinho. na mercearia única (?) do bairro.

    quando fui à Rússia pedi para o ver. sabiam dele sim mas... não o encontraram...

    parti de lá com a certeza de que não há ditaduras diferentes. todas são más.

    pobre rapaz condenado à nascença por um nome.


    alsace-lorraine at media.tsmm.net

    Antigamente, a escola era risonha e franca.
    Do velho professor as cãs, a barba branca,
    Infundiam respeito, impunham simpathia,
    Modelando as feições do velho, que sorria
    E era como criança em meio das crianças.
    Como ao pombal correndo em bando as pombas mansas,
    Corriam para a escola; e nem sequer assomo
    De aversão ou desgosto, ao ir para ali como
    Quem vai para uma festa.

    Ao começar o estudo,
    Eles, sem um pesar, abandonavam tudo,
    E submissos, joviais, nos bancos em fileiras,
    Iam todos sentar-se em frente das carteiras,
    Atenta, gravemente — uns pequeninos sábios.
    Uma frase a animar aquele bando imbele,
    Ia ensinando a este, ia emendando áquele,
    De manso, com carinho e paternal amor.

    Por fim, tudo mudou.
    Agora o professor,
    Um grave pedagogo, é austero e conciso;
    Nunca os lábios lhe abriu a sombra d’um sorriso
    E aos pequenos mudou em calabouço a escola
    Pobres aves, sem dó metidas na gaiola!
    Lá dentro, hoje, o francês é lingua morta e muda:
    Unicamente o alemão ali se fala e estuda,
    São alemães o mestre, os livros e a lição;
    A Alsácia é alemã; o povo é alemão.
    Como na própria pátria é triste ser proscripto!

    Frequentava também a escola um rapazito
    De severo perfil, enérgico, expressivo,
    Pálido, magro, o olhar inteligente e vivo
    — Mas de íntima tristeza aquele olhar velado
    Modesto no trajar, de luto carregado...
    — Pela pátria talvez!
    — Doze anos só teria.
    O mestre, d’uma vez, chamou-o à geografia:
    — "Dize-me cá, rapaz... Que é isso? estás de luto? Quem te morreu?"
    — "Meu pai, no último reduto, Em defesa da pátria!"
    — "Ah! sim, bem sei, adiante...
    Tu tens assim um ar de ser bom estudante.
    Quais são as principais nações da Europa? Vá!"
    — "As principaes nações são... a França..."
    — "Hein? que é lá?... Com que então, a primeira a França!
    Bom começo! De todas as nações, pateta, que eu conheço,
    Aquela que mais vale, a que domina o mundo,
    Nas grandes conceções e no saber profundo,
    Em riqueza e esplendor, nas letras e nas artes,
    Que leva o seu domínio às mais remotas partes,
    A mais nobre na paz, a mais forte na guerra,
    D’onde irradia a ciência a iluminar a terra,
    A maior, a mais bela, a que das mais desdenha,
    Fica-o sabendo tu, rapaz, é a Alemanha!"

    Ele sorriu com ar desprezador e altivo,
    A cabeça agitou n’um gesto negativo,
    E tornou com voz firme:
    — "A França é a primeira!"
    O mestre, furioso, ergue-se da cadeira,
    Bate o pé, e uma praga enérgica lhe escapa.
    — "Sabes onde está a França? Aponta-m’a no mapa!"
    O aluno ergue-se então, os olhos fulgurantes,
    O rosto afogueado; e enquanto os estudantes
    Olham cheios de assombro aquele destemido,
    Ante o mestre, nervoso, audaz e comovido,
    Timido feito herói, pigmeu tornado atleta,
    Desaperta, febril, a sua blusa preta,
    E batendo no peito, impávida, a criança
    Exclama: — "É aqui dentro! aqui é que está a França!"


    Acácio Antunes

    25/10/2007

    confissão


    image by Mark Townsend

    devia haver entre nós olhar de pedra. devia haver e há. mas há também a água que surge aos olhos quando nos cruzamos e torna a pedra doce. coisa de rebuçado para criança. lá ficamos sem jeito. a inventar palavras para cobrir o tempo desse estar.

    água a bater nas pedras. a amolecer as pedras que usamos como olhos ou pensamos usar. sabemos não poder olhar no fundo. lá para dentro é a alma. jogo das cinco pedrinhas. jogo de perder e de ganhar. já passámos por isso. conhecemos o risco de jogar. jogadores veteranos brincamos um com outro. provocação de infâncias tão passadas mas vivas como as cores do outono que esvoaçam à nossa volta já.

    image by Moore Reef

    acabou de chover. o ar está limpo. os olhos estão limpos mas olham em direcções diferentes e, se se cruzam, pregam-se logo ao chão. nenhum se quer mover dali e temos de. nenhum se quer calar pelo perigo disso e falamos de nada. por falar. rimos. temos de rir. ou caímos nos braços um do outro com o mundo a girar-nos em redor até nos despenharmos de vertigem na cama avermelhada do outono. mais quente ainda do que sol de agosto.

    irra, confesso que seria um gosto!

    24/10/2007

    o medo e a ludoterapia

    escritos não datados. como se a vida de Maria não tivesse sequência ou isso não lhe importasse para nada. por viver ser viver e nada mais. datas são referências para historiadores e ela como eu e a maioria de nós, não tem a veleidade de ficar na história.

    image by Hugo Provoste

    vivi medos de infância. incutidos. coisas de mãe a inculcar prudências até ao excesso disso. mas agora é real. vive-se o medo. o medo com maiúscula. o que tolhe. o que eles querem. o medo deles.
    e eu que vivi medos pequenos como se fossem coisas de Adamastor. escolhi perder o medo. sim escolhi. afinal em nós tudo se controla.

    quase perdi o primeiro filho em casa deles. dos senhores do poder-tudo-até-matar.

    Era de noite e levaram
    Era de noite e levaram
    Quem nesta cama dormia
    Nela dormia, nela dormia
    Sua boca amordaçaram
    Sua boca amordaçaram
    Com panos de seda fria
    De seda fria, de seda fria

    Era de noite e roubaram
    Era de noite e roubaram
    O que na casa havia na casa havia, na casa havia
    Só corpos negros ficaram
    Só corpos negros ficaram
    Dentro da casa vazia casa vazia, casa vazia

    Rosa branca, rosa fria Rosa branca, rosa fria
    Na boca da madrugada
    Da madrugada, da madrugada
    Hei-de plantar-te um dia
    Hei-de plantar-te um dia
    Sobre o meu peito queimada
    Na madrugada, na madrugada

    nunca esquecerei o bom que foi poder cantar isto. contralto que sou, de forma bem audível na hora de bater as barras. na hora do silêncio. ainda te agradeço daqui, Zeca, a companhia na solidão da cela.

    foi tudo exactamente assim com excepção da mordaça real. mais a devassa. ninguém mais pode entrar na casa. destruiram tudo. comeram beberam (no pinhal do rei). roubaram-me os livros.

    é verdade - o que não mata, fortalece. o meu filho a custo de injeções sobreviveu. faz agora ludoterapia. ontem já fez pipocas ao lume e ficou radiante por isso. pela segunda vez dizem que é sobredotado. a primeira foi aos dois anos e meio. pobre dele num país como o nosso. nem sei se lhe devo ou não falar do assunto se as coisas não mudarem por aqui.

    nas horas de espera da consulta comecei a escrever um livro louco, porque o silêncio do meu homem já me pesa nos ombros mais que os três filhos às cavalitas. para camuflar chamei-lhe "Marta ou o Diário da minha enteada". é um livro de adolescentes para adolescentes. cheio de revolta verdadeira. a minha ludoterapia. afinal todos temos direito a um jogo de curar.

    22/10/2007

    no centro de mim

    Grass by Norm La Coe


    cansada de viver de encontro ao vento nos tempos que estes tempos me trouxeram

    voei direita ao dia que fechava com a pressa de quem tem alguém à espera

    a tropeçar nos pés da luta inglória de ter de contar histórias que não sou

    à beira de ser morte cá por dentro com fúria de ciclone ainda por fora

    à beira de ser vida violenta com a morte a querer fechar-me a última saída

    à beira de... à beira de...


    - que é que eu dizia? chegaste meu amor. respiro agora.

    não não é vendaval, é maresia. não é morte nem vida é gargalhar!

    o que parecia ser engolir vento era a força do teu respirar

    a entrar em correria no meu centro.

    20/10/2007

    intervalo

    image by emiotic

    palavras-rio


    down-the-river by Aaron Rayburn


    descendo rios. saltando rio em rio

    adormentei a dor das palavras guardadas

    deitei sangue da alma. avermelhei a água

    nada passa se não for resolvido

    e as sangrias já estão ultrapassadas

    na arte benfaseja de curar


    vivi mares na idade dos lagos

    mais tarde afundei poços. fui atirada lá

    as palavras palpitavam-me as veias

    não era dentro a mim o seu lugar

    nem libertado o sangue elas saíam

    colavam-se-me às células do cérebro


    as palavras querem ser pronunciadas

    alivio as que se libertaram

    sofro as que insistem em não me abandonar

    as palavras que a ti nunca direi

    navegam rios comigo e alastrarão no mar

    acabarão nas praias como história

    como história. não como mais histórias

    image by Santiago Caama



    as palavras ganharam vida própria

    são elas rios agora a transbordar.


    animais de águas turvas

    na rua havia sol. o café tinha de ser lá fora ela não o tomava e no quase vazio da casa não o vi. aliás prefiro bica.
    fui ao café da esquina. falei dela. que não a têm visto. a senhora daqui só leva sumos e água das pedras, bolos só muito raramente - o dono - diz que o açucar ás vezes lhe faz falta e depois a enjoa - e lá se foi a atender cliente. pego à toa mais uma folha de caderno quadriculado A4. tanto se me dá a ordem dos dias desornedados que viveu. quero é ler.



    no Verão há quase sempre um pouco mais de paz. pelo menos até hoje. com a filharada toda, os meus os teus e os nossos, a entrar e a sair na alegria da quinta ou nas idas para a praia, sem aquele casarão a promover distãncias, ele deixa o álcool-depressão e, nada sóis.

    com a mãe ausente e a não poder augurar futuros abaixo de sinistros e os filhos a dormir o sono justo da correria à solta, sentados em volta da lareira apagada, claro, mas mesmo assim ainda aconchegante, surge o inesperado da boca do meu homem:
    - hoje tive um convite mais que estranho, já lhe disse?
    - não.
    não fiz perguntas. com ele bastava sempre só esperar. não nos mentíamos. amantes, embriaguez, de tudo ele acabaria (e acabou) sempre por me falar. era o seu jeito de ser casado comigo.
    - estava eu no emprego quando a sua irmã me ligou a propor um almoço em casa dela. fiquei quase de cócoras de pasmo, pois se aos dois juntos ela nunca convida... porquê agora consigo aqui na quinta?
    que era para eu não me sentir sozinho apressou-se a dizer. não fosse ela um carro de assalto, como você lhe chama e eu pensaria que me queria...
    - engatar? e porque não? você é meu, é célebre e tem nome sonante. além de ser um espanto de homem, mas isso não sei se cabe na avaliação dela. porque não?
    - bem, ela é sua irmã...
    - pois. cada um nasce com o seu calvário. oiça amor , ela é bicho que caça em águas pantanosas e nem que eu desgastasse a mente e espremesse as meninges até as rebentar a conseguiria entender mais do que já disse. deu-lhe corda quando ia lá a casa agora...

    - que é que quer ela fazia-me rir e ... é sua irmã.

    - também o Abel e Caim eram...

    não pensei mais naquilo até lhe encontrar o caderno onde isto ficou escrito "por causa dos outros também"*. tínhamos muito amor à nossa espera durante o sono doce das crianças.
    mais tarde apercebi-me dos riscos de menosprezar um animal de sangue frio. mas nunca é tarde demais senão depois da morte e mesmo assim, depois da morte, sei eu lá.



    *José de Almada Negreiros

    19/10/2007

    milagre em Fátima...

    - preciso ter uma Páscoa decente. sempre foi importante para mim esta data. vem comigo a Fátima? está lá o seu amigo padre e você até disse poemas. assim aproveito e oiço-a também.

    - sim mas já estão gravados. Fátima não é bem a luz que me alumia, sabes isso.

    - nem a mim. mas não voltei lá desde que ia passear a mãe a casa da Lúcia. assim aproveito e visito as antigas criadas. faço-as felizes.
    dizer-lhe que não era difícil. ele precisava. tinha duas costelas partidas numa escorregadela de tapete, mas precisava conduzir até Fátima assim. estava um frio de rachar costelas sãs. nem um hotel marcado. nada. mas era preciso. assim, de véspera.

    - bem, se precisa, vamos.

    - não se você não quer.

    ah, tanta educação às vezes dava vontade de explodir como naquele dia - podias ter começado por perguntar primeiro!

    não explodi. afinal ele precisava. a minha missão com ele já era de serviço há muito tempo. coisa de mãe mais nova do que o filho, mas presente na hora.

    image by BA Mark Mapa

    dormida numa casa de freiras fria e árida. as dores nas vértebras cresceram. as velhas senhoras agradeceram-me tê-lo levado lá. obrigada. nunca pensámos ver de novo o nosso príncipe aqui. aos pés de nossa Senhora. a mãezinha dele deve estar tão feliz...

    muitas orações, reuniões, meditações e vias-sacras depois, comigo a servir de voz na contemplação dos mistérios, lá nos arranjaram um quarto decente. estava exausta. bem precisava, agora eu, dormir. mas o corpo dele precisava do meu. estava eufórico. cortar-lhe a rara felicidade, esteve para mim fora de questão. na dúvida de ter esquecido a pílula tomei outra.

    e nesse dia engravidei.

    image by Marino Mannarini

    quando se pede um milagre não se pode escolher qual. aprendi.

    depois do choque incial pelo imprevisto (e foi bem grande). imaginei uma filha nascendo com uma pílula na mão a rir à gargalhada. a filha tenho-a. saudável. reguila. atrevida. peremptória no acto de nascer e de viver. a pílula deve tê-la perdido lá nos rios-misteriosos-regaços por onde navegou até a poder ver. eu ri.

    mas a Fátima não penso voltar. não vá a santa, carregada de jóias, tecê-las outra vez.

    *

    ao acabar de ler isto apetece-me com urgência um café. imaginar Maria em Fátima é difícil. mas contado por ela ... tenho de acreditar.

    18/10/2007

    os papéis. o tesouro perdido por ali


      seguro os papéis de Maria como se fossem meus. talvez mais. ela não os relia. atirava-os para o canto até resolver guardá-los numa arca quando, numa mudança de casa, os encontrou. lembro de a ouvir exclamar ao ler um deles - isto é escrito por mim?

      soltava a escrita como soltava tudo. carregar com ela sempre só as pedras que fora acumulando. achadas em viagens, na rua ou compradas em feiras, as de cor.


      image by Dan

      ainda é no teu amor que sobrevivo

      ainda é nele que encontro paz

      meu amigo de sempre. meu abrigo

      tu pedrada no charco em que vivia

      tu vida já na morte

      tu ferida em mim aberta dia a dia

      tu angústia tu raiva tu sonho tu verdade!

      vem-me de ti a força para sorrir

      e pisar firme rumo a um qualquer norte.


      escolhas.


        image by Jody Fenton

        a arca muito velha não tem chave. como dantes quando Maria estava por aqui e a abria para buscar uma história ou um livro precioso para ela ou um brinquedo oferecido pelos filhos e subraído à voracidade da mãe, que sempre o exigia, coisas de avó a que ela acedia com sofrimento mas sempre na vontade de lhe conquistar o afecto. nada ganhou com isso. sei eu. sabemos muitos.

        tropeço neles agora. barro. madeira. mãos de trabalho e carinho infantil estão lá espelhadas.

        apesar do pavor que tinha de ver as suas"coisas" devassadas pelos corvos, não há trancas. só a chave da porta era fechada e assim continua.

        pego os papéis e espalho-os no chão. sento-me à beira deles. não são muitos já. excepto os dois livros que como ela dizia, tinham passado o prazo de validade. num papel, tirado ao acaso, que eles nem data têm muitas vezes:

        image by Jody Fenton

        sofro às mãos de mim a minha história. escolhas são escolhas e eu escolhi este amor. mas não escolhi o aqui. o como. o onde. tudo o demais foi sendo acrescentado à minha juventude como se ser jovem significasse força sobre-humana.

        todos dormem na casa gigante, excepto eu. e é assim quase todas as noites. levanto-me. visito o sono deles. acaricio os sonhos que desejo felizes. os dos filhos. sorrio de ver a mãe como uma pedra no fundo de um poço, com a respiração mais lenta que a de lagarto a hibernar. amanhã vai dizer, como quase todas as manhãs: " não dormi nada. os meninos deram uma noite terrível...". ladadínhas que já sei de cór. nunca respondo. não valeria a pena.

        o marido? esse dorme o sono dos anti-depressivos, dos barbitúricos. da morte diária nessa hora e a ser adiada dia a dia. quanto tempo irá ele resistir? quanto tempo resistiremos todos? e os meninos, por quanto tempo mais lhes poderei esconder o pesadelo?

        desci para buscar água. não tenho vontade de subir. que faço eu aqui? que faço eu da noite ? que faço eu do futuro? que futuro há por ver?

        16/10/2007

        vida de papel


          image by Januaz Miller



          tantas vezes perdida tantas vezes achada . como um papel que parece esconder-se baixo ao nosso olhar, mas sempre ali.

          sim duvidei. quando a arca que faltava não era para abrir. ainda não. era a mim que cabia. senti-me cansada como se tivesse sido eu a carregar o peso do silêncio tantos anos a fio.

          não. não duvidei dela. não me tinha falhado como amiga nunca. também nunca se impunha. sabíamos apenas que ela estaria lá. não era egoísmo. era assim que nós nos entendíamos todos até ela desaparecer.

          desapareceu porquê? até eu me perguntei às vezes. ela que tanto se lhe dava falar horas a fio como ficar a ouvir-nos desabafos de gente, sem hora de fechar.

          duvidei. não duvidei? já nem me entendo. seja o que for é hora de abrir a arca e de a reencontrar.

          rio. e a outra margem.


            image by Hedy Lamarre

            e o rio corre com a nossa vida dentro. como nos outros dias. corre e arrasta tudo no caudal. lava. liberta os depósitos que sujavam as margens.

            um rio tem duas margens - a nossa e a dos outros e ainda que vistas da distância pareçam semelhantes, nunca o são.

            mas interessa é o rio que corre. o rio que corro. o rio que corre em mim e me liberta e limpa de passados. o que importa é viver. não sem sofrer eu sei. a vida é isto: uma dose de amor, outra de dor. a vida é. e pronto.

            o rio segue.