
tanto tempo a fugir para a beira de água. fugir como para braços de mãe. quentes.
a ti.
- "Não há um lado mau da vida: a vida é una" - Bernard Shaw photo - Ithaca by Arthur Durkee

que peso atiraste nos meus ombros e não sei carregar?
passaram muitas águas. límpidas umas, negras de lama outras
a juntar-se ao rio transparente. que mal lembro. mas fui
antes que me sonhasses. me soubesses
vivi eu pesadelos de matar (e estarei viva?)
___*___
a minha esperança passou a usar o nome que tu tens
o pouco amor de que ainda sou capaz, usa-o também
todo o bem que ainda espero liga-se a ti
como a um cordão de mãe.
que foi que me fizeste?
como queres fazer reviver. dia a dia. o que por pouco


já corre livremente a água pelas encostas.
os animais saem dos abrigos ao primeiro raio de sol. o pão não vem com a chuva. cresce dela.
também é essa a hora de predar. os mais fortes. ou não? os mais astutos. movem-se sorrateiros na esperança de fragilidades outras ou dos outros. são os carníveros. grandes senhores da vida ensanguentada de carne tenra. seja o bife da vazia mal passado ou a ave em voo titubeante que lhes caiu nas garras. num golpe de asa a nunca terminar.
a época da chuva é no entanto boa. lava. lava a mente de se saber tudo isto e disto nos atormentar o sono e embaciar o olhar.
há quem lhes escape. ao abrigo dela. há quem saiba escorregar devagarinho pelas ladeiras de lama ou neve até se afastar. de vez. das enormes bocarras. sempre abertas. prontas a devorar.
só não há água que lave os cantos ensanguentados da boca dos carníveros. o sangue congelou ao escorregar dos beiços salivantes de gula. e mancha de sangue sempre foi uma nódoa difícil de tirar.
sou como um poço de águas sem inquietação. na aparência. onde se lança o balde, inclina, enche e lança de novo. um infindável poço onde a água deve ser eterna.
deixo ingenuamente as palavras subir à superfície. mansas como algas macias ao tocar. não tenho intenção de comunicar nenhum sentido que sirva à vida alheia.
se tenho, é subterrâneo como tudo é em mim.
nasci a contragosto de quem me viu nascer. sou mulher subterrânea já que era homem o que devia ter surgido no mundo. no dia nove de um ano terminado em nove de um novembro qualquer.
então desci, com os homens meus irmãos, às cavernas das minas que as mulheres em regra desconhecem. (não se iludam. as jovens. ainda hoje elas lhes são vedadas. há rituais para poder entrar lá. os homens são tão misteriosos como as mulheres. de diferente maneira. apenas isso.)
aprendi com eles o guardar de segredos. a partilha diferente. sem cobrança (nesse tempo). o não falar de dores. do tempo. do preço das cebolas ou da roupa a passar.
subterraneamente cresci outros temas em mim - revolta. liberdade. trabalho. luta. literatura. futebol. clandestinidade. riso. camaradagem. amores.
hoje tudo ainda ferve (em lume brando agora) no poço de aparência ingénua e calma.
BoilingMud_ at www.caboose.org.uk jorro a vida. fora.
photo by kryyslee
Fall_River by David Halpern... mas os rios correm e não param ao gosto da indiferença. essa, com a inveja irão parar ao esgoto da humanidade e tal como os rios que nos correm serão, em breve, nada na imensidão do mar.
afinal é de água que sempre falo aqui. esgotos e rios têm o mesmo fim. o mar.
o mar.
o Mar!
não descanso. não durmo. nem o som das águas chega aos meus ouvidos. a acalmar
como o ladrar de uma matilha na euforia da caça a vozearia na minha cabeça estala e sobe
vozes de mortos e de vivos agurmentam. dizem de sua razão. todos a têm
a cada um sua razão. não se encontram. não dialogam. falam. tão alto que a cabeça me estoura no escutar
hão-de dizer - é louca se houve vozes. hão-de dizer. já dizem muitas coisas mais
mas esses não importam. não entram na minha cabeça. não são deste meu mundo de vivos e de mortos
sinto-me um receptor de onda curta. não emito. recebo tudo numa amplidão insuportável
saberão que os escuto? não. não podem saber. se soubessem conviriam também quanto os conheço
porque eles não se auscultam entre si e eu nem posso sequer impedir-me isso
tanta voz! tanto eu! tanta dor sem remorso! tanta crueza! tanta intolerância! tanto silêncio em grito (o dos mortos)!
mando calar o meu animal de estimação que ladra a um odor novo ali por perto
não obedece. e de que serviria se são as razões dos vivos e dos mortos que me martelam o cérebro sem cessar?
onde é o interruptor que desliga isto? isto de ser receptor sem poder interferir? onde?
não sei.
avanço no silêncio da noite e caio num sono sem pesadelos já. respirei fora. só me faltava isso. respirei fora o veneno que havia no fungo venenoso servido, com requintes, ao jantar.
"quem não sabe florestas não deve oferecer fungos". um último bocejo e o sono vence.
súbito a temperatura sobe. são quatro da manhã. a chuva cai como um rio em cascata e eu faço amor como quem reza ou chora de alegria.
devia haver entre nós olhar de pedra. devia haver e há. mas há também a água que surge aos olhos quando nos cruzamos e torna a pedra doce. coisa de rebuçado para criança. lá ficamos sem jeito. a inventar palavras para cobrir o tempo desse estar.
água a bater nas pedras. a amolecer as pedras que usamos como olhos ou pensamos usar. sabemos não poder olhar no fundo. lá para dentro é a alma. jogo das cinco pedrinhas. jogo de perder e de ganhar. já passámos por isso. conhecemos o risco de jogar. jogadores veteranos brincamos um com outro. provocação de infâncias tão passadas mas vivas como as cores do outono que esvoaçam à nossa volta já.
image by Moore Reef
acabou de chover. o ar está limpo. os olhos estão limpos mas olham em direcções diferentes e, se se cruzam, pregam-se logo ao chão. nenhum se quer mover dali e temos de. nenhum se quer calar pelo perigo disso e falamos de nada. por falar. rimos. temos de rir. ou caímos nos braços um do outro com o mundo a girar-nos em redor até nos despenharmos de vertigem na cama avermelhada do outono. mais quente ainda do que sol de agosto.
irra, confesso que seria um gosto!
descendo rios. saltando rio em rio
adormentei a dor das palavras guardadas
deitei sangue da alma. avermelhei a água
nada passa se não for resolvido
e as sangrias já estão ultrapassadas
na arte benfaseja de curar
vivi mares na idade dos lagos
mais tarde afundei poços. fui atirada lá
as palavras palpitavam-me as veias
não era dentro a mim o seu lugar
nem libertado o sangue elas saíam
colavam-se-me às células do cérebro
as palavras querem ser pronunciadas
alivio as que se libertaram
sofro as que insistem em não me abandonar
as palavras que a ti nunca direi
navegam rios comigo e alastrarão no mar
acabarão nas praias como história
como história. não como mais histórias
image by Santiago Caamaas palavras ganharam vida própria
são elas rios agora a transbordar.