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26/07/2010

"bebe o mar, Xantós!"


miss_you____by_gutku

tanto tempo a fugir para a beira de água. fugir como para braços de mãe. quentes.

brincar com pedras conchas mas sem gente. ouvir as ondas. furá-las e voltar

para terra firme. o mar é tão profundo como o céu deve ser. não me aventuro a mais que rios

eu sou de ver. não de engolir o mar. "bebe o mar, Xantós!" vem-me à cabeça o teu grito na fala de Esopo

a tua voz de homem de Liberdade e de coragem. separado pelo rio. na outra margem

separado de mim que tanto te amo agora como dantes. calo. a lágrima foge...


hoje, como tu nessa altura, tenho a garganta fechada ainda ao grito por dar. seca. calada

só à espera da hora. a hora certa do cansaço chegar a fazer subir a raiva à boca

até ao grito que me mate mas sacuda esse bando baço prepotente medíocre

do qual um povo morre de medo outra vez (o desemprego, o patrão, a fome)


brinco com pedras conchas ondas sons maresias gaivotas (mas até essas gritam com as marés)

e como a minha sobe!

quando o grito chegar será o grande inesquecível e final espectáculo

haverá alguém que me escute. que me siga. que me ignore ou dispare

mas nunca que me dome!




a ti.

23/02/2009

des - espero

photo by Knut Hoftun Knudsen


que foi que me fizeste?

que peso atiraste nos meus ombros e não sei carregar?

passaram muitas águas. límpidas umas, negras de lama outras

a juntar-se ao rio transparente. que mal lembro. mas fui

antes que me sonhasses. me soubesses

vivi eu pesadelos de matar (e estarei viva?)


___*___

a minha esperança passou a usar o nome que tu tens


o pouco amor de que ainda sou capaz, usa-o também


todo o bem que ainda espero liga-se a ti


como a um cordão de mãe.



que foi que me fizeste?



como queres fazer reviver. dia a dia. o que por pouco


não secou o rio que fui. desde a nascente à foz?



21/01/2009

rocha derramada



dureza de rocha


pedra sobre pedra fui acumulando camadas de mim

o que vi. vivi. o que endureceu no passar dos anos


xisto é o que sou. des-faço em planos

cada plano tem diferente sentir. tem data diferente

cada um _____ um nome

nenhum é o meu


o nome que eu tinha perdi-o nas escarpas

rasgou-se com a pele que por lá deixei. a apodrecer





água é que me quero!


solta. dissolvente. nem nova nem velha

viva. como gente


com garras de fera. com uivos de cio

com a pele fremente ao sonho de ti

com o arrepio que antecede o estar

à curta distância

no ponto de ouvir_____ o teu respirar

o coração sobe. como o sol no dia

a boca estrangula o grito_vontade

o grito_alegria_____ que abre com a manhã


os olhos. espantados

onde está a rocha? a dureza. onde?


sou água. sou água. derramo por ti




fotos de Ricardo Costa

02/12/2008

"bife da vazia"

by Jordi AC


já corre livremente a água pelas encostas.

os animais saem dos abrigos ao primeiro raio de sol. o pão não vem com a chuva. cresce dela.


também é essa a hora de predar. os mais fortes. ou não? os mais astutos. movem-se sorrateiros na esperança de fragilidades outras ou dos outros. são os carníveros. grandes senhores da vida ensanguentada de carne tenra. seja o bife da vazia mal passado ou a ave em voo titubeante que lhes caiu nas garras. num golpe de asa a nunca terminar.


a época da chuva é no entanto boa. lava. lava a mente de se saber tudo isto e disto nos atormentar o sono e embaciar o olhar.


há quem lhes escape. ao abrigo dela. há quem saiba escorregar devagarinho pelas ladeiras de lama ou neve até se afastar. de vez. das enormes bocarras. sempre abertas. prontas a devorar.


só não há água que lave os cantos ensanguentados da boca dos carníveros. o sangue congelou ao escorregar dos beiços salivantes de gula. e mancha de sangue sempre foi uma nódoa difícil de tirar.


13/11/2008

onda de rio

wave of river
foto de madalena pestana



dia de nuvens brancas. um rio que se escurece. maré cheia a ondular a água como se vento houvesse.

arredei-me do meio líquido um tempo atrás. sensibiliza demais a fragilidade dos meus nervos

faz-me crer numa paz que não existe. relembra ou cria amores. ondeia. embala a vida

tal qual um barco de madeira leve. só feito para brincar na margem. por crianças.

não posso dar-me ao luxo de brincar. não. porque dói nos joelhos-da-alma cada queda

mas o apelo da água é mais forte. aproximo-me quase até me molhar. cada salpico toca no meu sangue

subitamente soa uma harpa antiga no meu cérebro. cânticos tão esquecidos quanto vivos entoam em redor

e entro enfim na onda a aquecer-me do frio.


com medo ou não de amar eu volto ao rio

09/08/2008

o que em mim ferve

image by Mike Burdic


é subterrâneo tudo o que em mim ferve.

sou como um poço de águas sem inquietação. na aparência. onde se lança o balde, inclina, enche e lança de novo. um infindável poço onde a água deve ser eterna.


deixo ingenuamente as palavras subir à superfície. mansas como algas macias ao tocar. não tenho intenção de comunicar nenhum sentido que sirva à vida alheia.


se tenho, é subterrâneo como tudo é em mim.


nasci a contragosto de quem me viu nascer. sou mulher subterrânea já que era homem o que devia ter surgido no mundo. no dia nove de um ano terminado em nove de um novembro qualquer.


então desci, com os homens meus irmãos, às cavernas das minas que as mulheres em regra desconhecem. (não se iludam. as jovens. ainda hoje elas lhes são vedadas. há rituais para poder entrar lá. os homens são tão misteriosos como as mulheres. de diferente maneira. apenas isso.)


aprendi com eles o guardar de segredos. a partilha diferente. sem cobrança (nesse tempo). o não falar de dores. do tempo. do preço das cebolas ou da roupa a passar.


subterraneamente cresci outros temas em mim - revolta. liberdade. trabalho. luta. literatura. futebol. clandestinidade. riso. camaradagem. amores.


hoje tudo ainda ferve (em lume brando agora) no poço de aparência ingénua e calma.



BoilingMud_ at www.caboose.org.uk


com o tempo foram atirando desperdícios para o fundo do poço. calúnias. lixo. pensamentos vazios. nulidades de vida. a inveja de quem se mirava na água do poço e fazia a pergunta da madrasta má da história de infância - espelho meu. espelho meu... - até isso afundaram na água calma. na aparência.

mas em mim tudo ferve.

a água tantos anos a ferver deu em evaporar. sobra lama em ebolição à beira de saltar do poço. atirar fora à vista de quem passa o lixo com que me encheram a vida.


que era água. a ferver. subterraneamente.


21/07/2008

sangue. corrente

Photo by Bowden Quinn


a água do meu sangue converteu-se

por três vezes. únicas. demarcadas

em água pura


rios. três.

de início pareciam riachos alegres . saltitando socalcos

pequenas pedras dos caminhos da vida



falava-se da sorte que tivera


- "rios de sangue bom são água sã!"


o orgulho que eu, vaga nascente, sentia
ao escutar

chamar ao resto do meu sangue espalhado no mundo

boa água!


que mais se pode dar. merecido. à terra Mãe

que água de bem?



não há rios iguais...


um deles corre agora subterrâneo

por sombrias montanhas

e no verão

resta uma mancha de água exposta ao ar

______________


dava todo o meu sangue. cor vermelha

para ver esse meu rio chegar ao mar...

______________

a veia está aberta

jorro a vida. fora.



rio de sangue de mãe é coisa pouca

e tudo quanto tenho


usa-o. filho. vai ter de te bastar.


26/06/2008

Mar limpo. até de mim

photo by Valery

hoje

hoje mergulho de alegria. alívio. pasmo.

tudo era tão simples. e eu sem ver

as janelas estavam escancaradas. e eu sufocava


a Vida estava ali. ao lado. e eu não vivia


parada no tempo em que ao parir. perdi.

não foi bem ao parir. não. essa beleza não a dou a ninguém!

nem ao fazer das crias gente capaz e útil


não . não foi aí. não foi.


foi só ao distrair-me. por cansaço.

por não ver a serpente. sequiosa de ovos, ou louca de

poder sugar-lhes NOME e SANGUE.

quase prontos para a Vida que eles estavam....

a tal. a dura. a de todos os dias. meios-dias e noites.


ah! mas hoje mergulho em água limpa a sal

que se dane o passado!

quem não cresceu vai bem a tempo ainda


eu vou com as ondas. até ao fundo. até ao meu sangue


lá em cima sujo. caluniado

e aqui reciclado. para sempre.

pelo Mar.


22/06/2008

sangrar ou sons de par.tir

image by Robert & Shana Parkeharrison

enxertar
sangrar palavras

ou vidas?

na paisagem fria
há gentes. vazias


nascidas do rictual
de reproduzir

a árvore era una

agora é ramo
morto. hemorragia

coisas de mulher

ou árvore ferida


by dr3wie


seguem os caminhos
que há por sobre a água.

o sangue na terra

árvore repartida

partida

três sons


ár vo re


13/06/2008

ele há miséria e - a miséria

photo by Peace Correspondent

um estranho agrediu-me. um puro estranho.
espantou-me aquele ódio de marginal. mais que a dor na cabeça. da pancada. ainda me espanto. eu. coisas de quem passou por outros tempos e não está para se habituar a estes.

calcei os ténis e com uma amiga, fomos até à montanha. lavar a cabeça de gente. nem um cantil levámos. sabíamos que no topo havia uma nascente. de água pouca mas límpida e corrente.

pelo caminho quase não falámos. a minha amiga mais por temperamento. eu por me martelar no cérebro a palavra miséria.

os que têm fome. da real . da física. dirão: - na miséria vivo eu.
estão enganados. vivem com a falta do essencial para sobreviver mas a dignidade permanece. ainda que em justa revolta e inacreditável sofrimento.

mas miserável é quem não sabe o seu lugar na vida. quem perdeu os princípios e se orgulha disso. quem pensa ter todos os direitos. porque sim. quem ostenta o que tem na frente de quem não o poderá ter. como quem acena com um pão a um esfomeado e lhe dá uma gargalhada em vez do pão. ou caso dê a sandes que levava para o caminho curto, corre a alardear - eu dei! eu dei! olhem como eu sou bom. batam-me palmas. sou rei.

e é. rei desta selva.
leão preguiçoso que só caça para si e depois ruge. como se isso fosse um feito assinalável.

rei da miséria. é.

chegadas à fonte saciámos a sede. de água e esperança.

- esquece isso. já não muda. pega numa borracha e apaga-o. ou então segura numa pedra. pensa nele. passa a tua energia de frustração e raiva para a pedra e atira-a à água. ficará no fundo. depois viramos costas.

deixámos a miséria para trás. essa miséria.


fiz o que a minha amiga sugeriu. fiquei tão leve!

há caminhos de areia para ir buscar água pela manhã. não volto aos caminhos de pedra.

há tanta gente com sede e eu conheço muitos rios e fontes e nascentes. tenho de os ensinar.

descemos a correr e, a sorrir!

photo by kryyslee


12/03/2008

param as águas correntes ?


foto de madalena pestana

este blog nasceu como outros tantos para destruir a inveja e tentar vencer a indiferença.
são duas terríveis características humanas. da modernidade. sobretudo.

a inveja não sei se destruiu. deixei de a ver. ceguei para ela. falei dela e dentro de mim... matei-a. se a nomeei. não merecia.

a indiferença não a venceu. essa é menos corrosiva na aparência mas mais cobarde. foge até do seu nome. prefere usar o de vítima.

o indiferente vitimiza-se. e ai de quem não se condoa.

não tenho tempo ou paciência para mais. que vivam o que são e como são. e eu com isso?

afinal não sou deus ou diabo para querer ou poder mudar a alma humana.

a indiferença é uma parede baça que se há-de magoar dia a dia mais nas arestas de si mesma. não sabe isso. é preciso viver para saber. e viver muito. e sofrer muito. de muitas dores. próprias e alheias.

a indiferença desperta depois da morte. de outros. e é tarde. tarde até para continuar indiferente. mas...

Fall_River by David Halpern


... mas os rios correm e não param ao gosto da indiferença. essa, com a inveja irão parar ao esgoto da humanidade e tal como os rios que nos correm serão, em breve, nada na imensidão do mar.

afinal é de água que sempre falo aqui. esgotos e rios têm o mesmo fim. o mar.

o mar.

o Mar!

29/02/2008

vozearia

image by Dave Preston

não descanso. não durmo. nem o som das águas chega aos meus ouvidos. a acalmar

como o ladrar de uma matilha na euforia da caça a vozearia na minha cabeça estala e sobe

vozes de mortos e de vivos agurmentam. dizem de sua razão. todos a têm

a cada um sua razão. não se encontram. não dialogam. falam. tão alto que a cabeça me estoura no escutar

hão-de dizer - é louca se houve vozes. hão-de dizer. já dizem muitas coisas mais

mas esses não importam. não entram na minha cabeça. não são deste meu mundo de vivos e de mortos

sinto-me um receptor de onda curta. não emito. recebo tudo numa amplidão insuportável

saberão que os escuto? não. não podem saber. se soubessem conviriam também quanto os conheço

porque eles não se auscultam entre si e eu nem posso sequer impedir-me isso

tanta voz! tanto eu! tanta dor sem remorso! tanta crueza! tanta intolerância! tanto silêncio em grito (o dos mortos)!

mando calar o meu animal de estimação que ladra a um odor novo ali por perto

não obedece. e de que serviria se são as razões dos vivos e dos mortos que me martelam o cérebro sem cessar?

onde é o interruptor que desliga isto? isto de ser receptor sem poder interferir? onde?

não sei.


02/01/2008

chove e é bom.

image by Yury S

cresce o alívio em mim. durmo na terra. confundo-me com ela. sinto-lhe o bafo frio de inverno mas quente de mãe. sei que me dá todo o calor que pode. a terra tem sempre algum calor para dar.

avanço no silêncio da noite e caio num sono sem pesadelos já. respirei fora. só me faltava isso. respirei fora o veneno que havia no fungo venenoso servido, com requintes, ao jantar.

"quem não sabe florestas não deve oferecer fungos". um último bocejo e o sono vence.

súbito a temperatura sobe. são quatro da manhã. a chuva cai como um rio em cascata e eu faço amor como quem reza ou chora de alegria.


image Lutz Behnke

numa partilha com o cosmos que me deu a água abençoada, ofereço-lhe o prazer e a energia do amor redondo, circular, de um corpo para outro e de ambos para deus.

é uma oferenda boa. é o milagre de saber estar vivo e pouco importa se estou a sonhar.

12/11/2007

duas frases soltas do caderno

image by Janusz Miller

que importa que os lençóis sejam de linho se está desabitado um corpo de mulher?

pode ela seguir qual curso de água se na vida, como no inverno, não chover?

02/11/2007

mas eu quis ser tanta coisa!

imagem de J.Roumagnac

falo sempre do que sei ou sou. não sei falar diferente.

mas há coisas que ficam pelo caminho por dizer. coisas da vida mas da outra gente

coisas que encontrei nas águas bem à tona. tão superficiais que nem a água as quis

serão profundas de outros? que sei eu?

se nem sei se as árvores quando morrem correm para o mar

ou se nasceram dele e lá regressam como a um berço antigo...


não sei nada. é por isso que só escrevo do que sei ou sou

daí o pouco encanto. daí a repetição inevitável.

se ao menos me atrevesse a escrever sobre tudo o que nunca fui

mas que quis ser.


29/10/2007

adiante


Water_by_TheEveningStarLenore

embravecida a água salpica-me o rosto quente ainda de raivas que passaram pelos vasos sanguíneos a regar-me o cérebro. que bom!

que boa a água! que bom libertar raivas que marcaram por anos, o dia a dia que eu queria de paz! que bom distanciar-me agora disso tudo como nos separamos de tralha velha, a atrair traça no sótão lá de casa. tanto espaço nos sobra! era urgente fazê-lo mas teve de ficar sempre para amanhã.

teve de ser. não por feitio meu.

agora? agora o rio da vida corre quase como dantes. quase. que as águas nunca se movem para trás e ainda bem.


image by Ramūnas Danisevičius

salto do rio para o mar. voo de ave-gigante. com o corpo para a frente. liberta do passado. o futuro é adiante.

há deus ou há justiça! o nome tanto faz.

25/10/2007

confissão


image by Mark Townsend

devia haver entre nós olhar de pedra. devia haver e há. mas há também a água que surge aos olhos quando nos cruzamos e torna a pedra doce. coisa de rebuçado para criança. lá ficamos sem jeito. a inventar palavras para cobrir o tempo desse estar.

água a bater nas pedras. a amolecer as pedras que usamos como olhos ou pensamos usar. sabemos não poder olhar no fundo. lá para dentro é a alma. jogo das cinco pedrinhas. jogo de perder e de ganhar. já passámos por isso. conhecemos o risco de jogar. jogadores veteranos brincamos um com outro. provocação de infâncias tão passadas mas vivas como as cores do outono que esvoaçam à nossa volta já.

image by Moore Reef

acabou de chover. o ar está limpo. os olhos estão limpos mas olham em direcções diferentes e, se se cruzam, pregam-se logo ao chão. nenhum se quer mover dali e temos de. nenhum se quer calar pelo perigo disso e falamos de nada. por falar. rimos. temos de rir. ou caímos nos braços um do outro com o mundo a girar-nos em redor até nos despenharmos de vertigem na cama avermelhada do outono. mais quente ainda do que sol de agosto.

irra, confesso que seria um gosto!

20/10/2007

palavras-rio


down-the-river by Aaron Rayburn


descendo rios. saltando rio em rio

adormentei a dor das palavras guardadas

deitei sangue da alma. avermelhei a água

nada passa se não for resolvido

e as sangrias já estão ultrapassadas

na arte benfaseja de curar


vivi mares na idade dos lagos

mais tarde afundei poços. fui atirada lá

as palavras palpitavam-me as veias

não era dentro a mim o seu lugar

nem libertado o sangue elas saíam

colavam-se-me às células do cérebro


as palavras querem ser pronunciadas

alivio as que se libertaram

sofro as que insistem em não me abandonar

as palavras que a ti nunca direi

navegam rios comigo e alastrarão no mar

acabarão nas praias como história

como história. não como mais histórias

image by Santiago Caama



as palavras ganharam vida própria

são elas rios agora a transbordar.


11/10/2007

amando a vida.


    image by Geoffroy Demarquet

    reergo-me.

    tem de ser hoje ainda. não há tempo que pare e nada vale o absurdo de o perder.

    a caminho do rio, manhã escura ainda, pergunto-me onde foi que me afastei da linguagem que encontro quando saio da água e subo a margem até à voz dos outros. pergunto pelo método de perguntar. não que me interesse já o onde, o quando. sei que é bom que tenha acontecido.

    volto de cabeça cansada de os ouvir. que loucos são tão cheios de certezas!

    - não há nada de certo além da morte.

    grito com as mãos em concha para o leito do rio que me conhece. oiço-lhe o murmurar aquiescente. sabe bem.
    ainda que muitos reconheçam no meu grito uma verdade (para alguns parcial), seguem na vida como se o não fosse. estômagos cheios de certezas. ganham diabetes de tanta adocicada certeza para não pegar a vida pelos cornos.

    sacudo os cabelos a atirar fora os restos que trouxe da viagem-pesadelo à vida deles. vejo cair o lodo que se lhes prendera. sorrio. aliás hoje já despertara a sorrir, mas vieram mais vozes distorcidas a querer puxar-me lá para trás, para a morte triste. a morte dos sonâmbulos.

    dou um salto e mergulho. que bom a água fresca a colar-me ao corpo os trapos que ainda não tirei. porque não se pode falar nú com essa gente. não se pode sequer ser. não se pode. não se. não.

    amor, voltei!

    10/10/2007

    uma pedra no caminho


      image by A.K. Sircar


      há uma pedra no caminho das águas.

      uma pedra que o tempo não desgasta ou pouco o faz.

      uma pedra que tenta impedir o rio de seguir o seu curso

      uma pedra.

      uma pedra negra de mentira negra-grande

      uma pedra no meio de águas claras.


      era urgente remover a pedra.

      eu podia fazê-lo. até eu podia atirar para o infinito a pedra

      a pedra da mentira. a pedra negra.

      mas não se deve alterar o futuro. não se deve mexer na criação

      e aquela pedra foi ali posta por algum motivo

      tem uma função única na terra (como tudo tem).


      a pedra da mentira nunca impedirá o rio de correr

      ele contorna-a e segue até à foz de si sem medo da mentira

      a mentira está lá para se distinguir da clara verdade da água.