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25/04/2009

Renovação

a Madonna of the carnation at Wikipedia


ensina o cravo aos teus filhos

como quem conta um segredo

como quem lhes dá o leite


como quem lhes sara o medo

de ser de rir de viver!


ensina o cravo aos teus filhos

faz Portugal renascer



desta sombra deste baço

desta memória cansada

de uma Vitória que foi

grande livre e encarnada

toda cor e felicidade

toda Paz e Alegria

Fé no Futuro

e vergonha de um passado a não esquecer

para que não se repita

não vá Portugal morrer.

26/12/2008

entre perú e sonhos

Tamera Bremer


terminou. cansaço é o que sinto. indizível.

dois dias a sorrir para esperança alheia. repartir alegria armazenada para a ocasião.

dois dias tão infindáveis quanto inevitáveis. mais os anteriores dias a fazer cansar destes, por antecipação.

Natal. não é o teu nascimento, Jesus de Nazaré, o que não me apetece celebrar. sabes que não. é todo o circo que se criou em volta.

saí à rua por uns minutos. os passeios estão pejados de lixo. despojos de banquetes absurdos a apodrecer na calçada. ostentação. até nas sobras.

olho os rostos que se cruzam comigo. os do costume. nenhum olhar tem mais brilho que ontem. nenhuma revolta ou angústia serenou por ter sido Natal. só as contas dos que não são ricos vão ser mais difíceis de gerir ao longo de Janeiro.

aonde foi cair o Amor que pregaste?

talvez numa travessa de porcelana entre bacalhau, perú, sonhos e outras tantas coisas comestíveis.

come-se o Amor que não se sabe dar.


cansei. hoje já sem visitas nem telefonemas posso voltar a ser quem sempre sou - uma vulgar maria madalena que só deseja Paz.

Natal de 1980

08/09/2008

renascer. no mar.

sky sea and earth


depois de muito tempo. como se lhe fugisse. fui ver o sítio aonde os rios vão dar.

levei comigo um olhar novo. e todos os contornos foram novos, até o da serra que me viu nascer.


novo. bom é também este regresso breve. como quem chega a casa depois de viajar.


mas as minhas viagens levaram-me a memórias não queridas. ao escuro. ao invernoso desafecto dos rios que me saíram do corpo. como sangue quente.


- lembro ainda - cada vez mais esbatidamente. pudesse eu e esquecia. de vez!


venceram os amigos.


e desaguei no mar. que me acolheu.


é já com um sorriso que hoje escrevo. um sorriso de areia e vento e azul feito.


um sorriso de esperança. a renascer.



foto de madalena pestana


16/06/2008

os rios dos rostos

image by Karel Sobota

a chuva de quase verão lavou os caminhos sujos. há limpidez de novo. há primavera na transparência com que olho e vejo a vida. a minha vida. o tal quase final dela.

as nuvens do céu reflectidas no chão dão-me uma sensação de intemporalidade e infinito. que bom! para finita basto eu.

as nuvens incomodam-me tão pouco como as rugas do rosto. dão mais brilho ao céu quando regressa o sol. tal como as rugas são sulcos. sulcos de rios que correram por eles. rios de lágrimas. de prazer. de coragem. de esperança. rios que fizeram lagos em muitas outras vidas.

rugas-rios que dão brilho novo às estradas ainda por andar.

25/11/2007

só porque olhei...

é o tempo de olhar.

de olhar para ver. para o lado para baixo. se não olho para baixo tropeço nas pedras abandonadas na cidade. esta cidade onde me exilaram.

olho para o lado vez por outra. gente. gente cansada. desalegre. desfeita de cansaço e fim de esperança.

o filho desejado por haver. o dinheiro não estica e há as prestações do carro, da casa, da viagem que se fez pelo direito a ser primeiro mundo. o banco a oferecer facilidades. tantas. mas o juro subiu. a mulher ficou sem emprego. agora... agora é Natal. quase. lá vem a obrigação de festejar.

o Natal. a minha hora de temperar a comida com mais umas gotas de angústia e dar doces à cadela e partilhar com ela a ceia melhorada por hábito. festejar? mas o quê se a alma se me escapa ao olhar para o chão onde jazem os meus mortos. os que tive a cobardia de não acompanhar.

mas de que é que eu falava afinal? das gentes e da festa por vir. dos presentes pagos a prestações comprados nos vendedores de ouro no emprego ou a cartão de crédito, a obrigar ao sufoco por um ano mais.

depois é recomeçar a dieta de sopa e queijo fresco ao almoço e fazer uma massa para o jantar com carne picada para a família...

- achas que a tua mãe gostou do presente?

- claro, querida, adorou!

do outro lado:

- isto foi comprado nos chineses. aposto que para a mãe da outra foi ao centro comercial. e andei eu a gastar uma fortuna em presentes para eles.

presentes estão. mas como? no natal.

Cristo, explica-me tu o que é natal!

ao pensar nisto elevei o olhar. caí. tenho um joelho numa desgraça só. fractura não houve. bem, é porque a maça óssea não está má. poupei a fortuna de uma radiografia.

milagre de natal.