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05/07/2010

o amor dói

Fate_by_andyshade

parecia destinada a ficar ali
num espaço sem verde na cor, sem luz e sem nada
o amor dói , love hurts, recordava
mas onde estava o amor que gerara e repartira?

aquele amor de paz que resulta
de quando uma mulher e um homem se dão.

perdera-o na neblina de insondáveis desígnios
impensáveis sentires de destruir

fosse como fosse o amor não estava já no horizonte
havia um deserto negro a atravessar

vieram as horas de cerrar os dentes
todas feitas raiva sem dó e sem som
veio ainda a dor que não é de amar
a dor do vazio, do nada, do espaço baço
do frio. do corte
de aço
da morte a um traço
a faltar
nada mais que
o passo
e a querê-lo
dar!

veio depois o puro sadio cansaço
a fazer parar

descansou o braço estendido e à espera
descansou os olhos do seu perscrutar
descansou a mente. mas não a memória a abarrotar

a seguir ergueu-se. apoio de parede
conseguiu-se erecta. coisa celular
já nada esperava
e já pouco queria
e passo após passo
liberta do laço
que ali a prendia
voltou a andar


o amor? o amor dói
mas é lá, à frente, que a dor vai passar.


MP

28/05/2009

das distrações


image by Jan Piller

adormecida em belas teias brancas

disfarçadas no encanto dos dias

desse tempo

não viu a peste entrar

tinha rosto. era irmã. como sempre

vazia

Skeletons-in-Chairs-in-Desert-Death-Valley by Michael Howel


preço da confiança?

- bem cedo o diálogo da morte

era tudo o que ouvia


25/05/2009

sem rios

image by Christian Slanec


se todo feito gente

há um mundo que se cala

eu vergo à Natureza. que me fala


21/05/2009

passo a passo

Desert_by_HIIA

queda em maciez de areia fina. que o vento logo empurra para os olhos e os pulmões. o ar rareia.

ninguém em volta. só vozes a esquecer. minutos a esquecer.

as costas doem. terá sido da queda em mar-deserto?


voltar ao barco por ora é impensável.

tem nos ouvidos a voz de morto-vivo do contra-mestre no convés.

- acorda. olha. faz. depressa. temos pressa em ver terra.

ele. que não veria terra nem por baixo dos pés!...

- dêem-lhe a garrafa de rum talvez assim se cale!

pensava o marinheiro em silêncio. em silêncio o gritou vezes sem conta até ser vencido. a vertigem. depois caiu ao mar. ao mar. deserto.

desert_horned_lizards_by_Blepharopsis


onde o oásis para deitar a cabeça a escutar água doce. corrente? e descansar.

será a etapa de hoje. o de hoje passo a dar.

em nenhum outro espaço se atreve a adormecer. por todo o lado há répteis à espera do fim. para atacar ou ocupar lugar até no crânio, do que vêem como carcaça velha.

os répteis são animais de sangue frio - pensa. - há que aquecê-los.

e começa a cantar:

*FIFTEEN MEN ON THE DEAD MAN'S CHEST. YO-HO-HO AND A BOTTLE OF RUM!


* in Ode Marítima - por Álvaro de Campos

19/05/2009

1º passo

"monday-morning-comes-and goes by" -suzi9mm


o murro na mesa não bastou.

romper grilhetas?

nisso feriu os pulsos fracos. de fêmea

que de dor já suportou que baste

- a de parir. sem glórias de ver crias vencer. e outras demais -

estancou. o curso de água

ou deixou ela de o ver escoar no dia a dia.

do rio dos olhos secou-se a liquidez. de tanta poeira ardente nas infinitas e

desertas horas



"Desert Ripples" by Eloren

fechou-os então. para não dormir

alerta. qual gajeiro em mastro real

a quem é permitido só___cegar de tanto sal

sem descansar


sentiu. mesmo sem ver. a náusea da ondulação.

entonteceu.

despenhou-se. no mar.


13/04/2009

som do meu silêncio

image by Katia Chausheva


tatuaram nas minhas costas. a chicote brando.

a dor da Natureza a morrer. e eu devia contar

mas não sei as palavras. esqueci-lhes o som. perdi-o no deserto

da cidade

no infinito deserto. pleno de ruídos de gente. ocupada

a ouvir o eco de si própria e nada mais. não. erro! há ainda

outros sons

de que serão? - são os sons de poder.

sons de mandar

silenciar.





não foi obedecer. - não aprendi isso! -

parei. no meio da cidade. apopléctica

atirei-me. eu-pedra. de encontro ao barulho. ensurdecedor!

do deserto real. de tanta gente feito!

estatelei.


foi aí que esqueci o por dizer da Natureza

e... calei-me. de vez!


sem cumprir o que era meu de servir à única Mãe
que nunca me falhou

falar de quê?



conto. apenas. por ser este o meu jeito.

30/03/2009

o último sorriso

"fragmento" foto de Marco Bragança


em meio ao deserto da vida de agora

quebrada. perdida. pedaço de mim

não espero. não busco os restos que tive

e me davam forma - concha de criança segurar na mão

como coisa boa para guardar de noite. baixo à almofada

a escutar o mar até vir o sono -


não me quero inteira. a inteireza dói e eu cansei de dor.


prefiro-me assim. fragmento informe. bocado de nada

que o vento e as marés tornarão areia de tanto o rolar.


depois sim. depois serei mais um grão que ninguém verá.

Cristo voltará a este deserto e eu, serei do chão que ele pisará

e quem sabe então. pela última vez, num instante breve, sorrirei

feliz!


23/02/2009

des - espero

photo by Knut Hoftun Knudsen


que foi que me fizeste?

que peso atiraste nos meus ombros e não sei carregar?

passaram muitas águas. límpidas umas, negras de lama outras

a juntar-se ao rio transparente. que mal lembro. mas fui

antes que me sonhasses. me soubesses

vivi eu pesadelos de matar (e estarei viva?)


___*___

a minha esperança passou a usar o nome que tu tens


o pouco amor de que ainda sou capaz, usa-o também


todo o bem que ainda espero liga-se a ti


como a um cordão de mãe.



que foi que me fizeste?



como queres fazer reviver. dia a dia. o que por pouco


não secou o rio que fui. desde a nascente à foz?



17/02/2009

de manhã. e à tarde?

at GlobalPhoto

de manhã nasce o sol e, o civilizado, promete a si mesmo beber água. porque... de manhã nasce o sol.


mas a manhã é cheia de jornais que o deprimem e... ele espera o almoço onde já não parece mal a ninguém tomar um copo ... socialmemte. é claro!


social? se mente? claro que mente. a manhã passou-a na angústia da hora do almoço. até poder dizer para dentro de si e em alta voz- agora já vale! agora eu posso. agora é social!


photo by ZORBA


mas eu vivi com isto. dia e noite. onze anos. só que com um chefe que não se armava em chefe - era um chefe. como poucos. de natureza.

que faço eu ao sargento-lambe-botas que me caiu na rifa?

a esta hora?

bem, a esta hora quero dormir para amanhã conseguir acordar.

boa noite.




11/01/2009

tão longe e eu não sei esculpir

image by boocaw

está tão distante a ponte. tão lá longe!

por trás dos nevoeiros dos ventos e dos gelos

assim. os meus anseios. como posso atingi-los?


__________



andei tantos caminhos. subi montanhas

fiz passeios aos astros. esvaziei cascatas

desviei rios dos leitos. como se desmontar a Natureza

fossem grandes feitos __________ que te fizessem reparar

em mim


and I brought you  this amthyst ... from the Moon. :)

foto por madalena pestana



mas a vida. a real. é coisa bem diferente. na parte

que a mim cabe

não sei esculpir palavras__________ de milagre

e nem chego ao ponto__________tão simples!

de te dar a mão

dou-te uma pedra minha. como se fosse jóia

ou obra de arte



depois enrosco o frio no meio do silêncio


e espero a hora__________ insuspeita

de poder encontrar-te

05/01/2009

senhor "Deus dos Exércitos"

image at mjbryan.com


filhos de Abraão _ Isaque e Ismael


"Pesquisadores fizeram um estudo de DNA e comprovaram que judeus e árabes são parentes próximos, como diz a Bíblia. A descoberta significa que todos são originários de uma mesma comunidade ancestral, que viveu no Oriente Médio há 4.000 anos. Isso significa que a genética comprovou o parentesco bem próximo, maior que o existente entre judeus e a maioria das outras populações.


Segundo eles, quatro milênios representam apenas 200 gerações. Esse tempo seria muito curto para mudanças genéticas significativas. Os cientistas envolvidos no estudo também perceberam que, apesar da longa diáspora, as populações judaicas mantiveram intacta a identidade biológica. Eles afirmam que o resultado não apenas está de acordo com a tradição bíblica, como refutam a tese de que as comunidades judaicas atuais consistem principalmente de descendentes de convertidos de outras crenças."


Pois. Há lá pior que guerras fraticidas?


Há. Há simplesmente a Guerra - uma intenção eterna do homem. sobre a Terra.


03/12/2008

coisas do Frio

by vricci63 on flickr


a linha recta a apontar infinitos - a distância

esfriou-me o sentir. os afectos congelaram. semelhança de morte

tudo se assemelha quando o inverno vem. as cores. os aromas

as gentes. os gestos. as vestes. as casas vazias ou pejadas

quase sempre geladas. em verdade. de verdades quentes


tu. que me não faltavas. congelaste a distância

do sonho congelado por ti as cataratas líquidas. salgadas


que deveriam correr directamente dos meus olhos para o mar

congelaram


brancas e inúteis porque não servirão a qualquer

primavera por chegar




19/11/2007

chuva no deserto

thirsty by Dario Menasce


a chuva chega a aliviar o caudal seco do rio dos meus nervos

há uma solidão de pedra nas gentes em volta. o cinzento traz isso

a quem ama a cidade e o cimento-cerco onde me perco como num deserto

respiro lento. bebo a humidade como as árvores empoeiradas de obras

gordurosas de óleos sufocadas de gases poluentes. respiro.


- lembro-te

pouco nos importava que chovesse e desabasse o mundo sobre nós

tanto se nos dava que fosse o sol escaldante nos areais sem norte

criávamos oásis ou abrigos com a imaginação

dadas que estivessem as mãos nada nos impedia de seguir rastos de água


- lembro-te

meu rio de sangue-vida. meu bordão de viagem. meu senhor e meu pajem

lembro-te e volto ao nosso rio sem rumo ou sequer margem

entro nele e mergulho sem saber quanto futuro ainda há por vir

só sei que estarás comigo até ao fim mais do que eu pude estar

morrerei a sentir e a amar. farás comigo a última viagem


- lembro-nos e sorrio


no corredor alguém diz em voz alta que faz frio – eu não o sinto...

viverei ainda no mesmo planeta ou persigo-te já na cauda de um cometa?

01/10/2007

- mas...

Image by Rolf Hicker

-senti a tua falta nessa noite como um deserto frio branco.

- mas tu é que não foste . eu estive lá.

conversa que não houve. deserto com sentido. mas senti-te a falta como se fosses meu e me faltasses. tinha-te olhado os olhos - estavam tristes e eu nem podia perguntar porquê...

vénias de circunstância essas de fingirmos não pensar nos outros. ó deuses que elegante isso é!

e teria de ser a noite toda assim. o olhar desviado. o tropeçar inevitável. os sentidos todos em alerta máximo. e gente. muita gente. gente a mais com mil olhos por cada.

- por isso é que não fui.

- não foi o que disseste...

- e podia eu dizer porquê? e a quem se nem sequer a ti?

- a mim podias mas...

- mas... que se dane tudo! por isso é que não fui. não sou de mas.

pensava isto aconchegada no sofá. a cadela já tinha adormecido. é a minha hora de pensar. e desta vez voltaste. nessa hora. tu e o deserto de não estares ali. ou eu contigo. ou...

deserto branco. frio. porta aberta ao vento que regela.

mas...

hei-de voltar a ver-te. isso aquece-me um pouco enquanto escrevo palavras que nem eu quero entender.

- que tinhas nesse dia? porquê o olhar triste? diz!