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12/11/2007

duas frases soltas do caderno

image by Janusz Miller

que importa que os lençóis sejam de linho se está desabitado um corpo de mulher?

pode ela seguir qual curso de água se na vida, como no inverno, não chover?

27/10/2007

memórias que não pesam


um título. um poema, nos papéis de Maria. umas palavras antes.

image by Konrad Ciok

não me roubem as memórias por favor. não tenho rosto já. mas sei ainda muito bem quem sou. o de onde vim e o para onde vou.

o Estudante Alsaciano. decorei de rajada depois de querer entender palavra por palavra. nunca fui papagaio. disse-o muitas vezes. com raiva. quase a sentir o pai morto na guerra. sabia o que dizia e aonde ia. não me arrastaram a lado nenhum.

havia o Lenine, na Quinta da Lomba. tinha um pai enlouquecido pela pide e eram, claro, comunistas os dois.

enquanto a rapariga das tranças fingia gostar de bordar e escutava a mãe entre panelas e feijão verde, desvendávamos matas, o Lenine e eu.

- madalena, amanhã aquilo pode ser perigoso. não para vocês. mas para mim pode e muito. o teu pai quis que soubesses ao que ias ou não irias mesmo. tens a certeza que queres ir?

- é pela liberdade. quero e vou!

enquanto eu batia a mão no peito no final do poema, com a força de quem ama a terra onde nasceu, os homens batiam palmas. poucas mulheres mas também as havia. expressões duras.

lá em baixo, na cave, o Lenine português e os outros, corriam risco de ser presos. eu sabia. não depois. na hora. naquela hora. voltámos pelo esgoto abandonado desde o Lavradio até a casa. os homens murmuravam. estava escuro e eu tinha sono já.

algum tempo depois, o meu amigo foi preso. quis ver-me, na cadeia. vim a Lisboa com a mãe dele. à capital pela primeira vez e a visitar um preso. depois disso não o veria mais. tive pena. fazia muito bem pernas de rã que apanhávamos nos charcos.

teria ido viver para a Rússia foi o que constou nas bocas das mulheres. baixinho. na mercearia única (?) do bairro.

quando fui à Rússia pedi para o ver. sabiam dele sim mas... não o encontraram...

parti de lá com a certeza de que não há ditaduras diferentes. todas são más.

pobre rapaz condenado à nascença por um nome.


alsace-lorraine at media.tsmm.net

Antigamente, a escola era risonha e franca.
Do velho professor as cãs, a barba branca,
Infundiam respeito, impunham simpathia,
Modelando as feições do velho, que sorria
E era como criança em meio das crianças.
Como ao pombal correndo em bando as pombas mansas,
Corriam para a escola; e nem sequer assomo
De aversão ou desgosto, ao ir para ali como
Quem vai para uma festa.

Ao começar o estudo,
Eles, sem um pesar, abandonavam tudo,
E submissos, joviais, nos bancos em fileiras,
Iam todos sentar-se em frente das carteiras,
Atenta, gravemente — uns pequeninos sábios.
Uma frase a animar aquele bando imbele,
Ia ensinando a este, ia emendando áquele,
De manso, com carinho e paternal amor.

Por fim, tudo mudou.
Agora o professor,
Um grave pedagogo, é austero e conciso;
Nunca os lábios lhe abriu a sombra d’um sorriso
E aos pequenos mudou em calabouço a escola
Pobres aves, sem dó metidas na gaiola!
Lá dentro, hoje, o francês é lingua morta e muda:
Unicamente o alemão ali se fala e estuda,
São alemães o mestre, os livros e a lição;
A Alsácia é alemã; o povo é alemão.
Como na própria pátria é triste ser proscripto!

Frequentava também a escola um rapazito
De severo perfil, enérgico, expressivo,
Pálido, magro, o olhar inteligente e vivo
— Mas de íntima tristeza aquele olhar velado
Modesto no trajar, de luto carregado...
— Pela pátria talvez!
— Doze anos só teria.
O mestre, d’uma vez, chamou-o à geografia:
— "Dize-me cá, rapaz... Que é isso? estás de luto? Quem te morreu?"
— "Meu pai, no último reduto, Em defesa da pátria!"
— "Ah! sim, bem sei, adiante...
Tu tens assim um ar de ser bom estudante.
Quais são as principais nações da Europa? Vá!"
— "As principaes nações são... a França..."
— "Hein? que é lá?... Com que então, a primeira a França!
Bom começo! De todas as nações, pateta, que eu conheço,
Aquela que mais vale, a que domina o mundo,
Nas grandes conceções e no saber profundo,
Em riqueza e esplendor, nas letras e nas artes,
Que leva o seu domínio às mais remotas partes,
A mais nobre na paz, a mais forte na guerra,
D’onde irradia a ciência a iluminar a terra,
A maior, a mais bela, a que das mais desdenha,
Fica-o sabendo tu, rapaz, é a Alemanha!"

Ele sorriu com ar desprezador e altivo,
A cabeça agitou n’um gesto negativo,
E tornou com voz firme:
— "A França é a primeira!"
O mestre, furioso, ergue-se da cadeira,
Bate o pé, e uma praga enérgica lhe escapa.
— "Sabes onde está a França? Aponta-m’a no mapa!"
O aluno ergue-se então, os olhos fulgurantes,
O rosto afogueado; e enquanto os estudantes
Olham cheios de assombro aquele destemido,
Ante o mestre, nervoso, audaz e comovido,
Timido feito herói, pigmeu tornado atleta,
Desaperta, febril, a sua blusa preta,
E batendo no peito, impávida, a criança
Exclama: — "É aqui dentro! aqui é que está a França!"


Acácio Antunes

24/10/2007

o medo e a ludoterapia

escritos não datados. como se a vida de Maria não tivesse sequência ou isso não lhe importasse para nada. por viver ser viver e nada mais. datas são referências para historiadores e ela como eu e a maioria de nós, não tem a veleidade de ficar na história.

image by Hugo Provoste

vivi medos de infância. incutidos. coisas de mãe a inculcar prudências até ao excesso disso. mas agora é real. vive-se o medo. o medo com maiúscula. o que tolhe. o que eles querem. o medo deles.
e eu que vivi medos pequenos como se fossem coisas de Adamastor. escolhi perder o medo. sim escolhi. afinal em nós tudo se controla.

quase perdi o primeiro filho em casa deles. dos senhores do poder-tudo-até-matar.

Era de noite e levaram
Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Nela dormia, nela dormia
Sua boca amordaçaram
Sua boca amordaçaram
Com panos de seda fria
De seda fria, de seda fria

Era de noite e roubaram
Era de noite e roubaram
O que na casa havia na casa havia, na casa havia
Só corpos negros ficaram
Só corpos negros ficaram
Dentro da casa vazia casa vazia, casa vazia

Rosa branca, rosa fria Rosa branca, rosa fria
Na boca da madrugada
Da madrugada, da madrugada
Hei-de plantar-te um dia
Hei-de plantar-te um dia
Sobre o meu peito queimada
Na madrugada, na madrugada

nunca esquecerei o bom que foi poder cantar isto. contralto que sou, de forma bem audível na hora de bater as barras. na hora do silêncio. ainda te agradeço daqui, Zeca, a companhia na solidão da cela.

foi tudo exactamente assim com excepção da mordaça real. mais a devassa. ninguém mais pode entrar na casa. destruiram tudo. comeram beberam (no pinhal do rei). roubaram-me os livros.

é verdade - o que não mata, fortalece. o meu filho a custo de injeções sobreviveu. faz agora ludoterapia. ontem já fez pipocas ao lume e ficou radiante por isso. pela segunda vez dizem que é sobredotado. a primeira foi aos dois anos e meio. pobre dele num país como o nosso. nem sei se lhe devo ou não falar do assunto se as coisas não mudarem por aqui.

nas horas de espera da consulta comecei a escrever um livro louco, porque o silêncio do meu homem já me pesa nos ombros mais que os três filhos às cavalitas. para camuflar chamei-lhe "Marta ou o Diário da minha enteada". é um livro de adolescentes para adolescentes. cheio de revolta verdadeira. a minha ludoterapia. afinal todos temos direito a um jogo de curar.

20/10/2007

animais de águas turvas

na rua havia sol. o café tinha de ser lá fora ela não o tomava e no quase vazio da casa não o vi. aliás prefiro bica.
fui ao café da esquina. falei dela. que não a têm visto. a senhora daqui só leva sumos e água das pedras, bolos só muito raramente - o dono - diz que o açucar ás vezes lhe faz falta e depois a enjoa - e lá se foi a atender cliente. pego à toa mais uma folha de caderno quadriculado A4. tanto se me dá a ordem dos dias desornedados que viveu. quero é ler.



no Verão há quase sempre um pouco mais de paz. pelo menos até hoje. com a filharada toda, os meus os teus e os nossos, a entrar e a sair na alegria da quinta ou nas idas para a praia, sem aquele casarão a promover distãncias, ele deixa o álcool-depressão e, nada sóis.

com a mãe ausente e a não poder augurar futuros abaixo de sinistros e os filhos a dormir o sono justo da correria à solta, sentados em volta da lareira apagada, claro, mas mesmo assim ainda aconchegante, surge o inesperado da boca do meu homem:
- hoje tive um convite mais que estranho, já lhe disse?
- não.
não fiz perguntas. com ele bastava sempre só esperar. não nos mentíamos. amantes, embriaguez, de tudo ele acabaria (e acabou) sempre por me falar. era o seu jeito de ser casado comigo.
- estava eu no emprego quando a sua irmã me ligou a propor um almoço em casa dela. fiquei quase de cócoras de pasmo, pois se aos dois juntos ela nunca convida... porquê agora consigo aqui na quinta?
que era para eu não me sentir sozinho apressou-se a dizer. não fosse ela um carro de assalto, como você lhe chama e eu pensaria que me queria...
- engatar? e porque não? você é meu, é célebre e tem nome sonante. além de ser um espanto de homem, mas isso não sei se cabe na avaliação dela. porque não?
- bem, ela é sua irmã...
- pois. cada um nasce com o seu calvário. oiça amor , ela é bicho que caça em águas pantanosas e nem que eu desgastasse a mente e espremesse as meninges até as rebentar a conseguiria entender mais do que já disse. deu-lhe corda quando ia lá a casa agora...

- que é que quer ela fazia-me rir e ... é sua irmã.

- também o Abel e Caim eram...

não pensei mais naquilo até lhe encontrar o caderno onde isto ficou escrito "por causa dos outros também"*. tínhamos muito amor à nossa espera durante o sono doce das crianças.
mais tarde apercebi-me dos riscos de menosprezar um animal de sangue frio. mas nunca é tarde demais senão depois da morte e mesmo assim, depois da morte, sei eu lá.



*José de Almada Negreiros

19/10/2007

milagre em Fátima...

- preciso ter uma Páscoa decente. sempre foi importante para mim esta data. vem comigo a Fátima? está lá o seu amigo padre e você até disse poemas. assim aproveito e oiço-a também.

- sim mas já estão gravados. Fátima não é bem a luz que me alumia, sabes isso.

- nem a mim. mas não voltei lá desde que ia passear a mãe a casa da Lúcia. assim aproveito e visito as antigas criadas. faço-as felizes.
dizer-lhe que não era difícil. ele precisava. tinha duas costelas partidas numa escorregadela de tapete, mas precisava conduzir até Fátima assim. estava um frio de rachar costelas sãs. nem um hotel marcado. nada. mas era preciso. assim, de véspera.

- bem, se precisa, vamos.

- não se você não quer.

ah, tanta educação às vezes dava vontade de explodir como naquele dia - podias ter começado por perguntar primeiro!

não explodi. afinal ele precisava. a minha missão com ele já era de serviço há muito tempo. coisa de mãe mais nova do que o filho, mas presente na hora.

image by BA Mark Mapa

dormida numa casa de freiras fria e árida. as dores nas vértebras cresceram. as velhas senhoras agradeceram-me tê-lo levado lá. obrigada. nunca pensámos ver de novo o nosso príncipe aqui. aos pés de nossa Senhora. a mãezinha dele deve estar tão feliz...

muitas orações, reuniões, meditações e vias-sacras depois, comigo a servir de voz na contemplação dos mistérios, lá nos arranjaram um quarto decente. estava exausta. bem precisava, agora eu, dormir. mas o corpo dele precisava do meu. estava eufórico. cortar-lhe a rara felicidade, esteve para mim fora de questão. na dúvida de ter esquecido a pílula tomei outra.

e nesse dia engravidei.

image by Marino Mannarini

quando se pede um milagre não se pode escolher qual. aprendi.

depois do choque incial pelo imprevisto (e foi bem grande). imaginei uma filha nascendo com uma pílula na mão a rir à gargalhada. a filha tenho-a. saudável. reguila. atrevida. peremptória no acto de nascer e de viver. a pílula deve tê-la perdido lá nos rios-misteriosos-regaços por onde navegou até a poder ver. eu ri.

mas a Fátima não penso voltar. não vá a santa, carregada de jóias, tecê-las outra vez.

*

ao acabar de ler isto apetece-me com urgência um café. imaginar Maria em Fátima é difícil. mas contado por ela ... tenho de acreditar.

18/10/2007

os papéis. o tesouro perdido por ali


    seguro os papéis de Maria como se fossem meus. talvez mais. ela não os relia. atirava-os para o canto até resolver guardá-los numa arca quando, numa mudança de casa, os encontrou. lembro de a ouvir exclamar ao ler um deles - isto é escrito por mim?

    soltava a escrita como soltava tudo. carregar com ela sempre só as pedras que fora acumulando. achadas em viagens, na rua ou compradas em feiras, as de cor.


    image by Dan

    ainda é no teu amor que sobrevivo

    ainda é nele que encontro paz

    meu amigo de sempre. meu abrigo

    tu pedrada no charco em que vivia

    tu vida já na morte

    tu ferida em mim aberta dia a dia

    tu angústia tu raiva tu sonho tu verdade!

    vem-me de ti a força para sorrir

    e pisar firme rumo a um qualquer norte.


    escolhas.


      image by Jody Fenton

      a arca muito velha não tem chave. como dantes quando Maria estava por aqui e a abria para buscar uma história ou um livro precioso para ela ou um brinquedo oferecido pelos filhos e subraído à voracidade da mãe, que sempre o exigia, coisas de avó a que ela acedia com sofrimento mas sempre na vontade de lhe conquistar o afecto. nada ganhou com isso. sei eu. sabemos muitos.

      tropeço neles agora. barro. madeira. mãos de trabalho e carinho infantil estão lá espelhadas.

      apesar do pavor que tinha de ver as suas"coisas" devassadas pelos corvos, não há trancas. só a chave da porta era fechada e assim continua.

      pego os papéis e espalho-os no chão. sento-me à beira deles. não são muitos já. excepto os dois livros que como ela dizia, tinham passado o prazo de validade. num papel, tirado ao acaso, que eles nem data têm muitas vezes:

      image by Jody Fenton

      sofro às mãos de mim a minha história. escolhas são escolhas e eu escolhi este amor. mas não escolhi o aqui. o como. o onde. tudo o demais foi sendo acrescentado à minha juventude como se ser jovem significasse força sobre-humana.

      todos dormem na casa gigante, excepto eu. e é assim quase todas as noites. levanto-me. visito o sono deles. acaricio os sonhos que desejo felizes. os dos filhos. sorrio de ver a mãe como uma pedra no fundo de um poço, com a respiração mais lenta que a de lagarto a hibernar. amanhã vai dizer, como quase todas as manhãs: " não dormi nada. os meninos deram uma noite terrível...". ladadínhas que já sei de cór. nunca respondo. não valeria a pena.

      o marido? esse dorme o sono dos anti-depressivos, dos barbitúricos. da morte diária nessa hora e a ser adiada dia a dia. quanto tempo irá ele resistir? quanto tempo resistiremos todos? e os meninos, por quanto tempo mais lhes poderei esconder o pesadelo?

      desci para buscar água. não tenho vontade de subir. que faço eu aqui? que faço eu da noite ? que faço eu do futuro? que futuro há por ver?

      16/10/2007

      vida de papel


        image by Januaz Miller



        tantas vezes perdida tantas vezes achada . como um papel que parece esconder-se baixo ao nosso olhar, mas sempre ali.

        sim duvidei. quando a arca que faltava não era para abrir. ainda não. era a mim que cabia. senti-me cansada como se tivesse sido eu a carregar o peso do silêncio tantos anos a fio.

        não. não duvidei dela. não me tinha falhado como amiga nunca. também nunca se impunha. sabíamos apenas que ela estaria lá. não era egoísmo. era assim que nós nos entendíamos todos até ela desaparecer.

        desapareceu porquê? até eu me perguntei às vezes. ela que tanto se lhe dava falar horas a fio como ficar a ouvir-nos desabafos de gente, sem hora de fechar.

        duvidei. não duvidei? já nem me entendo. seja o que for é hora de abrir a arca e de a reencontrar.