- quê? é assim que ele fala? isso é conversa de gente?!
- não. é treta sem conversa e se é de gente não sei. não lhe quero ver os dentes para saber se ele é vampiro.
- para. é aqui que eu respiro fundo de tanto absurdo. pensava que gente assim ou já tinha mais de 80 ou tinha deixado o mundo com uma pedra ao pescoço.
- pois é. mas este sobrou. pelo menos por agora. fiz uma pausa na Vida. não sei quando chega a Hora de lhe mostrar de uma vez de que é feita uma Mulher.
- olha com quem se meteu o raio do cromo. coitado! mas ele é chefe de quê?
- de mim, pelo que entendi e bem pouco mais do que isso...
de manhã vem direitinho. controlado. atormentado. sem vontade de um sorriso. não que se note a diferença. aquilo, é cara sem rosto.
- e de tarde, é diferente? fica mais homem, mais gente?
- não. de tarde é pacote inchado, coisa de chefe à Bordalo. apetece até furá-lo e ouvir o ar a sair. pior?... era o cheiro a mosto que eu teria de sentir.
- ah. então está tudo explicado. e... dá-lhe uma de sargento?
- sim, com divisas de cabo. e eu vou contando até 100 para ver se o aguento. ele são bocas foleiras e queixinhas e rasteiras. enfim. coisas do antigamente que só vejo repetir em pessoas mal formadas a quem deram, por engano quero crer e por tempo limitado, uma réstea de poder.
- ele será afilhado?
- que eu saiba não. tu conheces-me. não sou dada a essas tricas. mas verá televisão e logo logo a seguir ensaia ao espelho. para imitar. um conhecido e de "má fama" engenheiro. e assim se julga patrão.
- pois é. parece que está na moda essa de ser prepotente. mas os tempos vão mudar. mudaram já e em tempos muito piores. onde os dessa laia eram bonecos de outros senhores.
- por mim podes apostar. nem que seja a única coisa a fazer em estado activo.
- isso faz as pedras rir!
- a mim não. e nem sorrir. só cerro. com força. a mão.
queda em maciez de areia fina. que o vento logo empurra para os olhos e os pulmões. o ar rareia.
ninguém em volta. só vozes a esquecer. minutos a esquecer.
as costas doem. terá sido da queda em mar-deserto?
voltar ao barco por ora é impensável.
tem nos ouvidos a voz de morto-vivo do contra-mestre no convés.
- acorda. olha. faz. depressa. temos pressa em ver terra.
ele. que não veria terra nem por baixo dos pés!...
- dêem-lhe a garrafa de rum talvez assim se cale!
pensava o marinheiro em silêncio. em silêncio o gritou vezes sem conta até ser vencido. a vertigem. depois caiu ao mar. ao mar. deserto.
desert_horned_lizards_by_Blepharopsis
onde o oásis para deitar a cabeça a escutar água doce. corrente? e descansar.
será a etapa de hoje. o de hoje passo a dar.
em nenhum outro espaço se atreve a adormecer. por todo o lado há répteis à espera do fim. para atacar ou ocupar lugar até no crânio, do que vêem como carcaça velha.
os répteis são animais de sangue frio - pensa. - há que aquecê-los.
e começa a cantar:
*FIFTEEN MEN ON THE DEAD MAN'S CHEST. YO-HO-HO AND A BOTTLE OF RUM!
crise é palavra feminina que cai primeiro que tudo. como uma trave. sobre a mulher.
não serve de muito discutir sobre isso. vi-a. à dita crise. atravessar-me a infância. toda. na adolescência. menos já.
ao homem cabia trabalhar mais ainda. mais que de sol-a-sol (como o meu pai). para lá do sol se por. encontrando o que fazer. rendendo. com muito esforço e imaginação.
à mulher cabia. cabe ainda. ouvir os filhos pedir-lhes por tudo (até por pão) e inventar desculpas para o "não há". mansas umas ou se mansidão é palavra distante. espantá-las com um grito e fazê-las chorar. enquanto choram por causa do grito ou do tabefe a acompanhar. esquecem o que lhes falta. criança é mesmo assim.
- mãe. posso comer pão com manteiga?
- não há manteiga. tens lá margarina que também é boa. é da vaqueiro que é quase igual.
- não é igual. mãe.
- então espera que o teu pai chegue. se ele trouxer dinheiro hoje...vou à mercearia e trago a maldita manteiga. raio da rapariga que é difícil de contentar.
neste caso a história acabou bem. o pai era um trabalhador desenfreado e conseguia não desapontar e a filha. por saber isso. tinha optado por esperar. nunca um pão com manteiga lhe soube tão bem.
obrigada mãe. pelo esforço dorido que é ter de dizer - não há - a um filho/a com fome (e ainda havia pão e a tal vaqueiro...).
por aqui e no Abril de agora. para muita gente já nem vaqueiro há. ou nasceram sem crise. né?
porque hoje mãe. a trave é mais pesada. muito.
as mulheres trabalham como os homens. não só na lida da casa e na costura para amealharem uns tostões e fazer um vestido novo à filha (lá para Maio...).
aqui e agora. depois do tal Abril de cravos todo feito. que só por dentro celebro. os gajos. os cromos dos poderes vários. enchem-se. enfardam. dançam a ronda no pinhal do Rei! *
e as mulheres? as mulheres são as primeiras a ser dispensadas (nova palavra para despedir) por - serem novas e terem de ter aulas. por estarem grávidas. por serem velhas e não se adaptarem ou...simplesmente por lhes terem fechado o posto de trabalho que os próprios abriram. e esta hein?! ou será também simples-mente porque são mulheres?
eu. na crise? - os filhos estão criados - a mim sobra passar da fila da caixapara a baixa (por causa da minha privada depressão) à fila do banco alimentar se me calhar ser DISPENSADA. eu sou Mulher...
o rio da miséria cresce. galga as margens da civilização. como no antigamente. fui eu que disse não há rios iguais?
dedicado a Maria José Batalha Pestana. minha Mãe.
* "Os Vampiros" do já ausente mas sempre Vivo, José Afonso.
sem palavras rebuscadas um Poeta único fala de forma inteligível ( e quanto trabalho intelectual gera esta simplicidade. aparente!). depois... depois é só pensar. ele já disse.
de manhã nasce o sol e, o civilizado, promete a si mesmo beber água. porque... de manhã nasce o sol.
mas a manhã é cheia de jornais que o deprimem e... ele espera o almoço onde já não parece mal a ninguém tomar um copo ... socialmemte. é claro!
social? se mente? claro que mente. a manhã passou-a na angústia da hora do almoço. até poder dizer para dentro de si e em alta voz- agora já vale! agora eu posso. agora é social!
photo by ZORBA
mas eu vivi com isto. dia e noite. onze anos. só que com um chefe que não se armava em chefe - era um chefe. como poucos. de natureza.
que faço eu ao sargento-lambe-botas que me caiu na rifa?
a esta hora?
bem, a esta hora quero dormir para amanhã conseguir acordar.