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26/07/2010

despedida. de ti.

See-our-sea-by-MagdaMontemor


tão perto a Navegar fomos chegando!

cheiro intenso a Mar e a cordames

a algas e marés - a sonhos de vigia

a cardumes brilhantes (tanta luz!)

bocas secas de sal - inundadas de oceanos

e era a terra só que nos prendia


em terra nos quedamos.


digo-te como o pescador que não sabe se volta

- saúde! até um dia...



25/07/2010

...pois é

image by Sergei Sogokon

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- quê? é assim que ele fala? isso é conversa de gente?!

- não. é treta sem conversa e se é de gente não sei. não lhe quero ver os dentes para saber se ele é vampiro.

- para. é aqui que eu respiro fundo de tanto absurdo. pensava que gente assim ou já tinha mais de 80 ou tinha deixado o mundo com uma pedra ao pescoço.

- pois é. mas este sobrou. pelo menos por agora. fiz uma pausa na Vida. não sei quando chega a Hora de lhe mostrar de uma vez de que é feita uma Mulher.

- olha com quem se meteu o raio do cromo. coitado!
mas ele é chefe de quê?

- de mim, pelo que entendi e bem pouco mais do que isso...

de manhã vem direitinho. controlado. atormentado. sem vontade de um sorriso. não que se note a diferença. aquilo, é cara sem rosto.

- e de tarde, é diferente? fica mais homem, mais gente?

- não. de tarde é pacote inchado, coisa de chefe à Bordalo. apetece até furá-lo e ouvir o ar a sair.
pior?... era o cheiro a mosto que eu teria de sentir.

- ah. então está tudo explicado. e... dá-lhe uma de sargento?

- sim, com divisas de cabo. e eu vou contando até 100 para ver se o aguento.
ele são bocas foleiras e queixinhas e rasteiras. enfim. coisas do antigamente que só vejo repetir em pessoas mal formadas a quem deram, por engano quero crer e por tempo limitado, uma réstea de poder.

- ele será afilhado?

- que eu saiba não. tu conheces-me. não sou dada a essas tricas.
mas verá televisão e logo logo a seguir ensaia ao espelho. para imitar. um conhecido e de "má fama" engenheiro. e assim se julga patrão.

- pois é. parece que está na moda essa de ser prepotente. mas os tempos vão mudar. mudaram já e em tempos muito piores. onde os dessa laia eram bonecos de outros senhores.

- por mim podes apostar. nem que seja a única coisa a fazer em estado activo.

- isso faz as pedras rir!

- a mim não. e nem sorrir. só cerro. com força. a mão.








Rafael Bordalo Pinheiro


28/05/2009

das distrações


image by Jan Piller

adormecida em belas teias brancas

disfarçadas no encanto dos dias

desse tempo

não viu a peste entrar

tinha rosto. era irmã. como sempre

vazia

Skeletons-in-Chairs-in-Desert-Death-Valley by Michael Howel


preço da confiança?

- bem cedo o diálogo da morte

era tudo o que ouvia


25/05/2009

sem rios

image by Christian Slanec


se todo feito gente

há um mundo que se cala

eu vergo à Natureza. que me fala


21/05/2009

passo a passo

Desert_by_HIIA

queda em maciez de areia fina. que o vento logo empurra para os olhos e os pulmões. o ar rareia.

ninguém em volta. só vozes a esquecer. minutos a esquecer.

as costas doem. terá sido da queda em mar-deserto?


voltar ao barco por ora é impensável.

tem nos ouvidos a voz de morto-vivo do contra-mestre no convés.

- acorda. olha. faz. depressa. temos pressa em ver terra.

ele. que não veria terra nem por baixo dos pés!...

- dêem-lhe a garrafa de rum talvez assim se cale!

pensava o marinheiro em silêncio. em silêncio o gritou vezes sem conta até ser vencido. a vertigem. depois caiu ao mar. ao mar. deserto.

desert_horned_lizards_by_Blepharopsis


onde o oásis para deitar a cabeça a escutar água doce. corrente? e descansar.

será a etapa de hoje. o de hoje passo a dar.

em nenhum outro espaço se atreve a adormecer. por todo o lado há répteis à espera do fim. para atacar ou ocupar lugar até no crânio, do que vêem como carcaça velha.

os répteis são animais de sangue frio - pensa. - há que aquecê-los.

e começa a cantar:

*FIFTEEN MEN ON THE DEAD MAN'S CHEST. YO-HO-HO AND A BOTTLE OF RUM!


* in Ode Marítima - por Álvaro de Campos

19/05/2009

1º passo

"monday-morning-comes-and goes by" -suzi9mm


o murro na mesa não bastou.

romper grilhetas?

nisso feriu os pulsos fracos. de fêmea

que de dor já suportou que baste

- a de parir. sem glórias de ver crias vencer. e outras demais -

estancou. o curso de água

ou deixou ela de o ver escoar no dia a dia.

do rio dos olhos secou-se a liquidez. de tanta poeira ardente nas infinitas e

desertas horas



"Desert Ripples" by Eloren

fechou-os então. para não dormir

alerta. qual gajeiro em mastro real

a quem é permitido só___cegar de tanto sal

sem descansar


sentiu. mesmo sem ver. a náusea da ondulação.

entonteceu.

despenhou-se. no mar.


05/05/2009

perguntem à morte


Artist Jan Piller


perdida num canto

quase. quase morta. num canto. esquecida.

sem rumo. sem eira. sem beira. sem rio a correr-lhe aos pés

só um mar dançante. batendo. definindo covas

picture by pazzodicinema on flickr

abrindo-lhe fendas cirurgicamente

onde só o ar se for leve e são, dará em caber


e tudo se apaga. rocha atormentada. terá de viver ?

tem. ainda tem. o tempo é assim. dá tempos à vida que


ninguém entende.

e porque que é que a Vida, coisa de outros Mundos

se há-de entender?!

26/04/2009

coisas de pó ao Vento

dust, originally uploaded by …Jæja.

da minha experiência de vida. ainda a tentar sintetizar:


há quem se cerque de gentes erradas por razões certas

daí que não escute as pessoas certas por... razões erradas.

25/04/2009

Renovação

a Madonna of the carnation at Wikipedia


ensina o cravo aos teus filhos

como quem conta um segredo

como quem lhes dá o leite


como quem lhes sara o medo

de ser de rir de viver!


ensina o cravo aos teus filhos

faz Portugal renascer



desta sombra deste baço

desta memória cansada

de uma Vitória que foi

grande livre e encarnada

toda cor e felicidade

toda Paz e Alegria

Fé no Futuro

e vergonha de um passado a não esquecer

para que não se repita

não vá Portugal morrer.

20/04/2009

trave sobre a mulher

image by Katia Chausheva

de tanto ouvir falar de crise acabei por escutar.

crise é palavra feminina que cai primeiro que tudo. como uma trave. sobre a mulher.

não serve de muito discutir sobre isso. vi-a. à dita crise. atravessar-me a infância. toda. na adolescência. menos já.

ao homem cabia trabalhar mais ainda. mais que de sol-a-sol (como o meu pai). para lá do sol se por. encontrando o que fazer. rendendo. com muito esforço e imaginação.

à mulher cabia. cabe ainda. ouvir os filhos pedir-lhes por tudo (até por pão) e inventar desculpas para o "não há". mansas umas ou se mansidão é palavra distante. espantá-las com um grito e fazê-las chorar. enquanto choram por causa do grito ou do tabefe a acompanhar. esquecem o que lhes falta. criança é mesmo assim.

- mãe. posso comer pão com manteiga?

- não há manteiga. tens lá margarina que também é boa. é da vaqueiro que é quase igual.

- não é igual. mãe.

- então espera que o teu pai chegue. se ele trouxer dinheiro hoje...vou à mercearia e trago a maldita manteiga. raio da rapariga que é difícil de contentar.


neste caso a história acabou bem. o pai era um trabalhador desenfreado e conseguia não desapontar e a filha. por saber isso. tinha optado por esperar. nunca um pão com manteiga lhe soube tão bem.


obrigada mãe. pelo esforço dorido que é ter de dizer - não há - a um filho/a com fome (e ainda havia pão e a tal vaqueiro...).

por aqui e no Abril de agora. para muita gente já nem vaqueiro há. ou nasceram sem crise. ?


porque hoje mãe. a trave é mais pesada. muito.

as mulheres trabalham como os homens. não só na lida da casa e na costura para amealharem uns tostões e fazer um vestido novo à filha (lá para Maio...).


aqui e agora. depois do tal Abril de cravos todo feito. que só por dentro celebro. os gajos. os cromos dos poderes vários. enchem-se. enfardam. dançam a ronda no pinhal do Rei! *


e as mulheres? as mulheres são as primeiras a ser dispensadas (nova palavra para despedir) por - serem novas e terem de ter aulas. por estarem grávidas. por serem velhas e não se adaptarem ou...simplesmente por lhes terem fechado o posto de trabalho que os próprios abriram. e esta hein?! ou será também simples-mente porque são mulheres?

eu. na crise? - os filhos estão criados - a mim sobra passar da fila da caixa para a baixa (por causa da minha privada depressão) à fila do banco alimentar se me calhar ser DISPENSADA. eu sou Mulher...


o rio da miséria cresce. galga as margens da civilização. como no antigamente. fui eu que disse não há rios iguais?

dedicado a Maria José Batalha Pestana. minha Mãe.








* "Os Vampiros" do já ausente mas sempre Vivo, José Afonso.





13/04/2009

som do meu silêncio

image by Katia Chausheva


tatuaram nas minhas costas. a chicote brando.

a dor da Natureza a morrer. e eu devia contar

mas não sei as palavras. esqueci-lhes o som. perdi-o no deserto

da cidade

no infinito deserto. pleno de ruídos de gente. ocupada

a ouvir o eco de si própria e nada mais. não. erro! há ainda

outros sons

de que serão? - são os sons de poder.

sons de mandar

silenciar.





não foi obedecer. - não aprendi isso! -

parei. no meio da cidade. apopléctica

atirei-me. eu-pedra. de encontro ao barulho. ensurdecedor!

do deserto real. de tanta gente feito!

estatelei.


foi aí que esqueci o por dizer da Natureza

e... calei-me. de vez!


sem cumprir o que era meu de servir à única Mãe
que nunca me falhou

falar de quê?



conto. apenas. por ser este o meu jeito.

11/04/2009

da dificuldade da Síntese e da sua Arte

is it raining inside?
foto de madalena pestana

- Série Fernando Pessoa - I

sem palavras rebuscadas um Poeta único fala de forma inteligível ( e quanto trabalho intelectual gera esta simplicidade. aparente!). depois... depois é só pensar. ele já disse.


A felicidade está fora da felicidade


30/03/2009

o último sorriso

"fragmento" foto de Marco Bragança


em meio ao deserto da vida de agora

quebrada. perdida. pedaço de mim

não espero. não busco os restos que tive

e me davam forma - concha de criança segurar na mão

como coisa boa para guardar de noite. baixo à almofada

a escutar o mar até vir o sono -


não me quero inteira. a inteireza dói e eu cansei de dor.


prefiro-me assim. fragmento informe. bocado de nada

que o vento e as marés tornarão areia de tanto o rolar.


depois sim. depois serei mais um grão que ninguém verá.

Cristo voltará a este deserto e eu, serei do chão que ele pisará

e quem sabe então. pela última vez, num instante breve, sorrirei

feliz!


25/03/2009

o medo e a promessa

photo by gabriella paulina on flickr


na noite. na minha. noite lua nova. rodopio medos. emoções esquecidas no tempo de escola

sou eu? eu quem teme. quem treme de um frio que nem mesmo há? sou eu esta agora. a mesma. a de ontem?

que foi que me fiz? onde está força de desfazer muros? com o gesto exacto. verso vendaval?

ah! serão as dores... terá de ser isso. não medo da morte. essa é minha amiga e sabe que a espero

de braços estendidos. de sorriso aberto. sem mãos a tremer.

sim. as dores que tolhem e trazem o medo de que tu não saibas. de que tu não creias.

espera um pouco mais. todas as dores passam e eu corro para ti

corro para cumprir o que sem falar. olhos nos teus olhos. sei que prometi e esperas de mim

24/02/2009

Até um dia. Obrigada.

pixArmsShallows


todos os rios terminam no mar. este não é diferente. só o percurso é muito alcantilado. demora a lá chegar.

23/02/2009

des - espero

photo by Knut Hoftun Knudsen


que foi que me fizeste?

que peso atiraste nos meus ombros e não sei carregar?

passaram muitas águas. límpidas umas, negras de lama outras

a juntar-se ao rio transparente. que mal lembro. mas fui

antes que me sonhasses. me soubesses

vivi eu pesadelos de matar (e estarei viva?)


___*___

a minha esperança passou a usar o nome que tu tens


o pouco amor de que ainda sou capaz, usa-o também


todo o bem que ainda espero liga-se a ti


como a um cordão de mãe.



que foi que me fizeste?



como queres fazer reviver. dia a dia. o que por pouco


não secou o rio que fui. desde a nascente à foz?



21/02/2009

o nada.

picture by Philippus


escrever é abrir uma porta para lado nenhum

quem escreve chega ao nada de si próprio

os que lêem ficam a saber os nadas escondidos

nas palavras


então para que escrever?

porque, para lá do mergulho no vazio

da palavra

abaixo. muito abaixo. corre um rio

by 1bluecanoe

silencioso e frio

e a alma. agora. água congelada. branca

esconde-se da história


e atinge-se o absoluto e ansiado


não fazer parte de nada

dos tempos ou do Tempo.

o Carnaval ainda não acabou?

carnivale (Circos II)



confesso. estou confusa.

desliguei o som do televisor. a minha coluna dói demais para eu ter paciência para anúncios. para cozinhar ainda menos.

esperei o homem da pizza. tinha encomendado uma.

"Bom fim de semana e bom feriado" disse o brasileiro simpático.

fiquei a pensar naquela do feriado. como ando drogada para as dores acabei por ligar a uma colega de emprego.

"É. Terça é feriado. Sempre deram essa ponte, não te lembras?"

deve ter-se rido. eu riria.

não. depois de desligar o telejornal pensei que tinha acabado a farra.

afinal vai continuar o circo.

esperemos que não continuem as dores.

divirtam-se.


17/02/2009

de manhã. e à tarde?

at GlobalPhoto

de manhã nasce o sol e, o civilizado, promete a si mesmo beber água. porque... de manhã nasce o sol.


mas a manhã é cheia de jornais que o deprimem e... ele espera o almoço onde já não parece mal a ninguém tomar um copo ... socialmemte. é claro!


social? se mente? claro que mente. a manhã passou-a na angústia da hora do almoço. até poder dizer para dentro de si e em alta voz- agora já vale! agora eu posso. agora é social!


photo by ZORBA


mas eu vivi com isto. dia e noite. onze anos. só que com um chefe que não se armava em chefe - era um chefe. como poucos. de natureza.

que faço eu ao sargento-lambe-botas que me caiu na rifa?

a esta hora?

bem, a esta hora quero dormir para amanhã conseguir acordar.

boa noite.