Mostrar mensagens com a etiqueta ser. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ser. Mostrar todas as mensagens

26/12/2008

entre perú e sonhos

Tamera Bremer


terminou. cansaço é o que sinto. indizível.

dois dias a sorrir para esperança alheia. repartir alegria armazenada para a ocasião.

dois dias tão infindáveis quanto inevitáveis. mais os anteriores dias a fazer cansar destes, por antecipação.

Natal. não é o teu nascimento, Jesus de Nazaré, o que não me apetece celebrar. sabes que não. é todo o circo que se criou em volta.

saí à rua por uns minutos. os passeios estão pejados de lixo. despojos de banquetes absurdos a apodrecer na calçada. ostentação. até nas sobras.

olho os rostos que se cruzam comigo. os do costume. nenhum olhar tem mais brilho que ontem. nenhuma revolta ou angústia serenou por ter sido Natal. só as contas dos que não são ricos vão ser mais difíceis de gerir ao longo de Janeiro.

aonde foi cair o Amor que pregaste?

talvez numa travessa de porcelana entre bacalhau, perú, sonhos e outras tantas coisas comestíveis.

come-se o Amor que não se sabe dar.


cansei. hoje já sem visitas nem telefonemas posso voltar a ser quem sempre sou - uma vulgar maria madalena que só deseja Paz.

Natal de 1980

16/12/2008

hoje. rio solto.



depois da queda livre que hoje vivo vou precisar ecrever. seja isso o que for.
passe ou não de um juntar letras a ____ sentir.

12/12/2008

tu vibração de ar



image by timeismonye12 on flickr



mergulho em sombra
fumo um cigarro
expiro o nevoeiro
envolvo nele o rio

nada existe onde estou
nem céu nem sol
nada
o nada
o nada eu

surge um gato do escuro
brilha. brilha
olhou-me? não sei bem



image by alemdag on flickr



sei que uma chama
me atinge a liquidez gelada
fervo
mistura-se o vapor da fervura
ao nevoeiro. acresce-o

eu
cego ou quase

depois volto a olhar

do gato
só um miado doce vibra o ar
a garantir-me que ele esteve ali


02/12/2008

"bife da vazia"

by Jordi AC


já corre livremente a água pelas encostas.

os animais saem dos abrigos ao primeiro raio de sol. o pão não vem com a chuva. cresce dela.


também é essa a hora de predar. os mais fortes. ou não? os mais astutos. movem-se sorrateiros na esperança de fragilidades outras ou dos outros. são os carníveros. grandes senhores da vida ensanguentada de carne tenra. seja o bife da vazia mal passado ou a ave em voo titubeante que lhes caiu nas garras. num golpe de asa a nunca terminar.


a época da chuva é no entanto boa. lava. lava a mente de se saber tudo isto e disto nos atormentar o sono e embaciar o olhar.


há quem lhes escape. ao abrigo dela. há quem saiba escorregar devagarinho pelas ladeiras de lama ou neve até se afastar. de vez. das enormes bocarras. sempre abertas. prontas a devorar.


só não há água que lave os cantos ensanguentados da boca dos carníveros. o sangue congelou ao escorregar dos beiços salivantes de gula. e mancha de sangue sempre foi uma nódoa difícil de tirar.


27/10/2008

pausa sem termo certo

image from imageshack.us.






há tempos para tudo na vida

para o silêncio sobretudo. até na escrita



20/10/2008

bom dia

by TYLER C.GORE



se não entendeste o que quis dizer até agora. olha a minha mão

o tempo gasta-se. a memória. essa é a chave de todos os segredos

21/09/2008

redemoínho

foto by Floriana Barbu


hoje não sei palavras femiminas. não. não é isso - hoje não sei palavras de escrever. a maior parte são no feminino e não é o feminino que me enreda.

adormeci num limbo de imagens neutras e sonhei toda a virilidade do mundo numa noite.

escrevo palavras soltas. masculinas. decidi. junte-as quem souber. não estou para isso. não quero. não consigo. hoje. depois da noite que sonhei.

sei escrever -

homem
outono
mar
redemoínho
sexo
volteio
suor
grito
espasmo
beijo
desejo
prazer
cansaço
sono
despertar
recomeço
mergulho
infinito...

ufff!


a ordem é do vosso livre arbítrio.

eu hoje não escrevo. sinto.

quero. é quase outono. e é no outono que eu desperto. saio do calor dormente do verão para este tempo vivo. latejante. incerto. tempo de morrer para renascer. tempo de verbos sem adjectivo.

tempo de ti.

e... paro por aqui.


02/11/2007

mas eu quis ser tanta coisa!

imagem de J.Roumagnac

falo sempre do que sei ou sou. não sei falar diferente.

mas há coisas que ficam pelo caminho por dizer. coisas da vida mas da outra gente

coisas que encontrei nas águas bem à tona. tão superficiais que nem a água as quis

serão profundas de outros? que sei eu?

se nem sei se as árvores quando morrem correm para o mar

ou se nasceram dele e lá regressam como a um berço antigo...


não sei nada. é por isso que só escrevo do que sei ou sou

daí o pouco encanto. daí a repetição inevitável.

se ao menos me atrevesse a escrever sobre tudo o que nunca fui

mas que quis ser.