escritos não datados. como se a vida de Maria não tivesse sequência ou isso não lhe importasse para nada. por viver ser viver e nada mais. datas são referências para historiadores e ela como eu e a maioria de nós, não tem a veleidade de ficar na história.
image by Hugo Provoste
vivi medos de infância. incutidos. coisas de mãe a inculcar prudências até ao excesso disso. mas agora é real. vive-se o medo. o medo com maiúscula. o que tolhe. o que eles querem. o medo deles.
e eu que vivi medos pequenos como se fossem coisas de Adamastor. escolhi perder o medo. sim escolhi. afinal em nós tudo se controla.
quase perdi o primeiro filho em casa deles. dos senhores do poder-tudo-até-matar.
Era de noite e levaram
Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Nela dormia, nela dormia
Sua boca amordaçaram
Sua boca amordaçaram
Com panos de seda fria
De seda fria, de seda fria
Era de noite e roubaram
Era de noite e roubaram
O que na casa havia na casa havia, na casa havia
Só corpos negros ficaram
Só corpos negros ficaram
Dentro da casa vazia casa vazia, casa vazia
Rosa branca, rosa fria Rosa branca, rosa fria
Na boca da madrugada
Da madrugada, da madrugada
Hei-de plantar-te um dia
Hei-de plantar-te um dia
Sobre o meu peito queimada
Na madrugada, na madrugada
nunca esquecerei o bom que foi poder cantar isto. contralto que sou, de forma bem audível na hora de bater as barras. na hora do silêncio. ainda te agradeço daqui, Zeca, a companhia na solidão da cela.
foi tudo exactamente assim com excepção da mordaça real. mais a devassa. ninguém mais pode entrar na casa. destruiram tudo. comeram beberam (no pinhal do rei). roubaram-me os livros.
é verdade - o que não mata, fortalece. o meu filho a custo de injeções sobreviveu. faz agora ludoterapia. ontem já fez pipocas ao lume e ficou radiante por isso. pela segunda vez dizem que é sobredotado. a primeira foi aos dois anos e meio. pobre dele num país como o nosso. nem sei se lhe devo ou não falar do assunto se as coisas não mudarem por aqui.
nas horas de espera da consulta comecei a escrever um livro louco, porque o silêncio do meu homem já me pesa nos ombros mais que os três filhos às cavalitas. para camuflar chamei-lhe "Marta ou o Diário da minha enteada". é um livro de adolescentes para adolescentes. cheio de revolta verdadeira. a minha ludoterapia. afinal todos temos direito a um jogo de curar.