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05/07/2010

o amor dói

Fate_by_andyshade

parecia destinada a ficar ali
num espaço sem verde na cor, sem luz e sem nada
o amor dói , love hurts, recordava
mas onde estava o amor que gerara e repartira?

aquele amor de paz que resulta
de quando uma mulher e um homem se dão.

perdera-o na neblina de insondáveis desígnios
impensáveis sentires de destruir

fosse como fosse o amor não estava já no horizonte
havia um deserto negro a atravessar

vieram as horas de cerrar os dentes
todas feitas raiva sem dó e sem som
veio ainda a dor que não é de amar
a dor do vazio, do nada, do espaço baço
do frio. do corte
de aço
da morte a um traço
a faltar
nada mais que
o passo
e a querê-lo
dar!

veio depois o puro sadio cansaço
a fazer parar

descansou o braço estendido e à espera
descansou os olhos do seu perscrutar
descansou a mente. mas não a memória a abarrotar

a seguir ergueu-se. apoio de parede
conseguiu-se erecta. coisa celular
já nada esperava
e já pouco queria
e passo após passo
liberta do laço
que ali a prendia
voltou a andar


o amor? o amor dói
mas é lá, à frente, que a dor vai passar.


MP

25/04/2009

Renovação

a Madonna of the carnation at Wikipedia


ensina o cravo aos teus filhos

como quem conta um segredo

como quem lhes dá o leite


como quem lhes sara o medo

de ser de rir de viver!


ensina o cravo aos teus filhos

faz Portugal renascer



desta sombra deste baço

desta memória cansada

de uma Vitória que foi

grande livre e encarnada

toda cor e felicidade

toda Paz e Alegria

Fé no Futuro

e vergonha de um passado a não esquecer

para que não se repita

não vá Portugal morrer.

20/04/2009

trave sobre a mulher

image by Katia Chausheva

de tanto ouvir falar de crise acabei por escutar.

crise é palavra feminina que cai primeiro que tudo. como uma trave. sobre a mulher.

não serve de muito discutir sobre isso. vi-a. à dita crise. atravessar-me a infância. toda. na adolescência. menos já.

ao homem cabia trabalhar mais ainda. mais que de sol-a-sol (como o meu pai). para lá do sol se por. encontrando o que fazer. rendendo. com muito esforço e imaginação.

à mulher cabia. cabe ainda. ouvir os filhos pedir-lhes por tudo (até por pão) e inventar desculpas para o "não há". mansas umas ou se mansidão é palavra distante. espantá-las com um grito e fazê-las chorar. enquanto choram por causa do grito ou do tabefe a acompanhar. esquecem o que lhes falta. criança é mesmo assim.

- mãe. posso comer pão com manteiga?

- não há manteiga. tens lá margarina que também é boa. é da vaqueiro que é quase igual.

- não é igual. mãe.

- então espera que o teu pai chegue. se ele trouxer dinheiro hoje...vou à mercearia e trago a maldita manteiga. raio da rapariga que é difícil de contentar.


neste caso a história acabou bem. o pai era um trabalhador desenfreado e conseguia não desapontar e a filha. por saber isso. tinha optado por esperar. nunca um pão com manteiga lhe soube tão bem.


obrigada mãe. pelo esforço dorido que é ter de dizer - não há - a um filho/a com fome (e ainda havia pão e a tal vaqueiro...).

por aqui e no Abril de agora. para muita gente já nem vaqueiro há. ou nasceram sem crise. ?


porque hoje mãe. a trave é mais pesada. muito.

as mulheres trabalham como os homens. não só na lida da casa e na costura para amealharem uns tostões e fazer um vestido novo à filha (lá para Maio...).


aqui e agora. depois do tal Abril de cravos todo feito. que só por dentro celebro. os gajos. os cromos dos poderes vários. enchem-se. enfardam. dançam a ronda no pinhal do Rei! *


e as mulheres? as mulheres são as primeiras a ser dispensadas (nova palavra para despedir) por - serem novas e terem de ter aulas. por estarem grávidas. por serem velhas e não se adaptarem ou...simplesmente por lhes terem fechado o posto de trabalho que os próprios abriram. e esta hein?! ou será também simples-mente porque são mulheres?

eu. na crise? - os filhos estão criados - a mim sobra passar da fila da caixa para a baixa (por causa da minha privada depressão) à fila do banco alimentar se me calhar ser DISPENSADA. eu sou Mulher...


o rio da miséria cresce. galga as margens da civilização. como no antigamente. fui eu que disse não há rios iguais?

dedicado a Maria José Batalha Pestana. minha Mãe.








* "Os Vampiros" do já ausente mas sempre Vivo, José Afonso.





23/02/2009

des - espero

photo by Knut Hoftun Knudsen


que foi que me fizeste?

que peso atiraste nos meus ombros e não sei carregar?

passaram muitas águas. límpidas umas, negras de lama outras

a juntar-se ao rio transparente. que mal lembro. mas fui

antes que me sonhasses. me soubesses

vivi eu pesadelos de matar (e estarei viva?)


___*___

a minha esperança passou a usar o nome que tu tens


o pouco amor de que ainda sou capaz, usa-o também


todo o bem que ainda espero liga-se a ti


como a um cordão de mãe.



que foi que me fizeste?



como queres fazer reviver. dia a dia. o que por pouco


não secou o rio que fui. desde a nascente à foz?



12/02/2009

"Bicho, meu lindo Bicho!" Não parece que foi ontem. Foi Hoje.

pink pansy
foto de madalena pestana dedicada a Nuno Bragança

"À descoberta de Nuno Bragança

Nem livro nem página em branco: a vida e a obra do escritor Nuno Bragança, nascido há 80 anos, continuam, ainda, demasiado desconhecidas.
(...) Nuno Bragança era um e vários, memória pessoana (...)" por Sílvia Souto Cunha em Visão - Cultura, Figura. (12 de Fev. de 2oo9 - pág 100)

A este texto, dos melhores que li, pelo que conheço do autor, e mais se aproximou (por não tentar parecer saber o que , de facto, não sabe) e, com o apoio do filho, Manuel Luís de Bragança, "o mais velho dos cinco filhos do autor", urge só uma pequena adenda: o nome dos outros filhos ou "os nossos putos" como ele, Nuno, preferia chamar-lhes: Maria de Bragança, Teresa de Bragança, Marco de Bragança, Leonor de Bragança (os dois últimos, filhos dele e da sua segunda mulher).

___*___

assim, meu Bicho, a lista está completa e, se a noite perdura, ainda ouço a tua gargalhada estridente no ar. o teu Riso. como agora. sempre que sabes porque digo o que digo.



PS. "Isto anda tudo ligado" - tu, citando Tolstoi.

e... ter nascido no dia de Darwin, Homem?

até já.

Magda

08/12/2008

vestidos a verde

image by Jacek Lidwin


cubro-me a verde. não de esperança _______ não espero

já é outro o sentir

mostro as rugas à terra _______ olhos nos olhos

confiança de filha na mãe única. de braços sempre abertos

de colo sempre ali



é uma espera longa. a de partir. e eu já não sei ficar


nada me prende


penso - ainda amo. e entristeço. de nada já isso me irá servir

cubro-me a verde _______ erva que o inverno permite sobre a lama

sem cantos de ave. um silêncio nocturno

e faço amor sonhando. como tantos

o outro corpo? nunca o encontrarei pele contra pele

talvez assim _______ na Terra. todo a verde coberto

talvez assim _______ num dia por haver

02/12/2008

"bife da vazia"

by Jordi AC


já corre livremente a água pelas encostas.

os animais saem dos abrigos ao primeiro raio de sol. o pão não vem com a chuva. cresce dela.


também é essa a hora de predar. os mais fortes. ou não? os mais astutos. movem-se sorrateiros na esperança de fragilidades outras ou dos outros. são os carníveros. grandes senhores da vida ensanguentada de carne tenra. seja o bife da vazia mal passado ou a ave em voo titubeante que lhes caiu nas garras. num golpe de asa a nunca terminar.


a época da chuva é no entanto boa. lava. lava a mente de se saber tudo isto e disto nos atormentar o sono e embaciar o olhar.


há quem lhes escape. ao abrigo dela. há quem saiba escorregar devagarinho pelas ladeiras de lama ou neve até se afastar. de vez. das enormes bocarras. sempre abertas. prontas a devorar.


só não há água que lave os cantos ensanguentados da boca dos carníveros. o sangue congelou ao escorregar dos beiços salivantes de gula. e mancha de sangue sempre foi uma nódoa difícil de tirar.


26/08/2008

à laia de um até já do qual não sei a idade


cito:





"A Terra não é nossa, foram os nossos filhos que no-la emprestaram" - Senghor




Image by pinoperrotta

21/02/2008

auto-retrato

image at haloimages.com


o pai pegou-lhe ao colo

a mãe ergueu-lhe os pés do chão



quando aprendeu a andar

mesmo olhando-a nos olhos

nunca mais a conseguiram ver

17/02/2008

na terra só as raízes


foto de madalena pestana


não estou no presente não vim do passado

não sou do futuro já me foi negado

não trago recados nunca fui profeta

e não sei sequer o que é ser poeta


fui mulher fui mãe agora o que sou?


tenho a alma fria tenho a cama fria

tenho o sonho morto a vida vazia

nem sei para que vivo não sei porque morro

não tenho uma causa para meu socorro


sei que fui mulher cheguei a ser mãe...


agora o que espero não vem, só demora

agora o que quero não tem certa hora

de onde vim eu? ao que vim? porquê?

nasci para morrer então não se vê?



cumpri o destino fui mulher fui mãe


morte, não demores que eu cansei. cansei!

25/11/2007

só porque olhei...

é o tempo de olhar.

de olhar para ver. para o lado para baixo. se não olho para baixo tropeço nas pedras abandonadas na cidade. esta cidade onde me exilaram.

olho para o lado vez por outra. gente. gente cansada. desalegre. desfeita de cansaço e fim de esperança.

o filho desejado por haver. o dinheiro não estica e há as prestações do carro, da casa, da viagem que se fez pelo direito a ser primeiro mundo. o banco a oferecer facilidades. tantas. mas o juro subiu. a mulher ficou sem emprego. agora... agora é Natal. quase. lá vem a obrigação de festejar.

o Natal. a minha hora de temperar a comida com mais umas gotas de angústia e dar doces à cadela e partilhar com ela a ceia melhorada por hábito. festejar? mas o quê se a alma se me escapa ao olhar para o chão onde jazem os meus mortos. os que tive a cobardia de não acompanhar.

mas de que é que eu falava afinal? das gentes e da festa por vir. dos presentes pagos a prestações comprados nos vendedores de ouro no emprego ou a cartão de crédito, a obrigar ao sufoco por um ano mais.

depois é recomeçar a dieta de sopa e queijo fresco ao almoço e fazer uma massa para o jantar com carne picada para a família...

- achas que a tua mãe gostou do presente?

- claro, querida, adorou!

do outro lado:

- isto foi comprado nos chineses. aposto que para a mãe da outra foi ao centro comercial. e andei eu a gastar uma fortuna em presentes para eles.

presentes estão. mas como? no natal.

Cristo, explica-me tu o que é natal!

ao pensar nisto elevei o olhar. caí. tenho um joelho numa desgraça só. fractura não houve. bem, é porque a maça óssea não está má. poupei a fortuna de uma radiografia.

milagre de natal.

07/11/2007

aniversário

image by Part Gibson

juventude de querer matar a vida. não suicídio. a vida totalmente. não a pedi e deram-ma sem querer. não entendi. nunca hei-de entender. ser mãe tem de ser acto cúmplice entre quem concebe e quem está por nascer.

assim o foi comigo por três vezes. assim seria tivessem sido seis.

mas não nasci assim. olharam-me e pediram perdão por eu ser mulher. como se mais importante do que um filho, fosse o agrado ao marido que desejava um homem para lhe manter o nome à flor da Terra.

ele sorriu. contaram-me cem vezes e condenou-me à exclusão por dizer, o santo poeta - não faz mal, Maria , ela ainda é mais bonita que a primeira.

não era isso que ele queria dizer, mãe. não entendeste. queria só aliviar-te do desgosto de não ser eu o rapaz desejado. não era dizer mal da filha que criavas há mais de dois anos o que queria. que é isso de ser bonito, mãe? todos os meus filhos são os melhores do mundo. Mãe. entende agora. ainda é tempo!



image by karlc

por isso estatifiquei a correr para ti, pai. e hoje a dois dias da data que nunca celebro, arranco os pés do chão na esperança de chegar a tempo de te abraçar no dia exacto do meu aniversário.

aí pesca-se, pai? aí há circo e bola? e manifestações proibidas onde irmos escondidos para não ralar ninguém? aí há barbeiros que cortem o cabelo à la garçonne para voarmos de moto, a seguir, sem cabelo a estorvar?

mesmo que não haja nada disso, deixa-me ir abraçar-te pai. tenho tanta saudade de te sentir amar-me!

sabes pai, o mundo está doente e eu ando tão perdida no meio de toda a gente...

27/10/2007

filho, eis o teu pai.

image by Eric Boutillier Brown


vi-te enfrentar mares enfurecidos
como se a vida tivesse começado ali

querias um filho como quem quer o céu

e por ele deixaste o vício-morte
e por ele me amaste a cada canto
a cada hora fértil. como os animais
que são sábios a preservar a espécie

vi-te vê-lo chegar como rei orgulhoso
que pode dar ao povo o sucessor
como se fosse o teu filho primeiro

se pudesses tê-lo-ias parido
(isso se os homens suportassem a dor)

escrevo isto a rir como naquele instante
em que o ouvi chorar com um alívio enorme
ah como a dor já me estava distante !

homem do mar, por ele foste forte.
e eu voltei a ser o que nasci para ser
apenas mãe
esse nome carregado de vida. até à morte.

24/10/2007

o medo e a ludoterapia

escritos não datados. como se a vida de Maria não tivesse sequência ou isso não lhe importasse para nada. por viver ser viver e nada mais. datas são referências para historiadores e ela como eu e a maioria de nós, não tem a veleidade de ficar na história.

image by Hugo Provoste

vivi medos de infância. incutidos. coisas de mãe a inculcar prudências até ao excesso disso. mas agora é real. vive-se o medo. o medo com maiúscula. o que tolhe. o que eles querem. o medo deles.
e eu que vivi medos pequenos como se fossem coisas de Adamastor. escolhi perder o medo. sim escolhi. afinal em nós tudo se controla.

quase perdi o primeiro filho em casa deles. dos senhores do poder-tudo-até-matar.

Era de noite e levaram
Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Nela dormia, nela dormia
Sua boca amordaçaram
Sua boca amordaçaram
Com panos de seda fria
De seda fria, de seda fria

Era de noite e roubaram
Era de noite e roubaram
O que na casa havia na casa havia, na casa havia
Só corpos negros ficaram
Só corpos negros ficaram
Dentro da casa vazia casa vazia, casa vazia

Rosa branca, rosa fria Rosa branca, rosa fria
Na boca da madrugada
Da madrugada, da madrugada
Hei-de plantar-te um dia
Hei-de plantar-te um dia
Sobre o meu peito queimada
Na madrugada, na madrugada

nunca esquecerei o bom que foi poder cantar isto. contralto que sou, de forma bem audível na hora de bater as barras. na hora do silêncio. ainda te agradeço daqui, Zeca, a companhia na solidão da cela.

foi tudo exactamente assim com excepção da mordaça real. mais a devassa. ninguém mais pode entrar na casa. destruiram tudo. comeram beberam (no pinhal do rei). roubaram-me os livros.

é verdade - o que não mata, fortalece. o meu filho a custo de injeções sobreviveu. faz agora ludoterapia. ontem já fez pipocas ao lume e ficou radiante por isso. pela segunda vez dizem que é sobredotado. a primeira foi aos dois anos e meio. pobre dele num país como o nosso. nem sei se lhe devo ou não falar do assunto se as coisas não mudarem por aqui.

nas horas de espera da consulta comecei a escrever um livro louco, porque o silêncio do meu homem já me pesa nos ombros mais que os três filhos às cavalitas. para camuflar chamei-lhe "Marta ou o Diário da minha enteada". é um livro de adolescentes para adolescentes. cheio de revolta verdadeira. a minha ludoterapia. afinal todos temos direito a um jogo de curar.

18/10/2007

escolhas.


    image by Jody Fenton

    a arca muito velha não tem chave. como dantes quando Maria estava por aqui e a abria para buscar uma história ou um livro precioso para ela ou um brinquedo oferecido pelos filhos e subraído à voracidade da mãe, que sempre o exigia, coisas de avó a que ela acedia com sofrimento mas sempre na vontade de lhe conquistar o afecto. nada ganhou com isso. sei eu. sabemos muitos.

    tropeço neles agora. barro. madeira. mãos de trabalho e carinho infantil estão lá espelhadas.

    apesar do pavor que tinha de ver as suas"coisas" devassadas pelos corvos, não há trancas. só a chave da porta era fechada e assim continua.

    pego os papéis e espalho-os no chão. sento-me à beira deles. não são muitos já. excepto os dois livros que como ela dizia, tinham passado o prazo de validade. num papel, tirado ao acaso, que eles nem data têm muitas vezes:

    image by Jody Fenton

    sofro às mãos de mim a minha história. escolhas são escolhas e eu escolhi este amor. mas não escolhi o aqui. o como. o onde. tudo o demais foi sendo acrescentado à minha juventude como se ser jovem significasse força sobre-humana.

    todos dormem na casa gigante, excepto eu. e é assim quase todas as noites. levanto-me. visito o sono deles. acaricio os sonhos que desejo felizes. os dos filhos. sorrio de ver a mãe como uma pedra no fundo de um poço, com a respiração mais lenta que a de lagarto a hibernar. amanhã vai dizer, como quase todas as manhãs: " não dormi nada. os meninos deram uma noite terrível...". ladadínhas que já sei de cór. nunca respondo. não valeria a pena.

    o marido? esse dorme o sono dos anti-depressivos, dos barbitúricos. da morte diária nessa hora e a ser adiada dia a dia. quanto tempo irá ele resistir? quanto tempo resistiremos todos? e os meninos, por quanto tempo mais lhes poderei esconder o pesadelo?

    desci para buscar água. não tenho vontade de subir. que faço eu aqui? que faço eu da noite ? que faço eu do futuro? que futuro há por ver?

    30/07/2007

    Foi só desejo, Amor! Foi só!

    image by Karin Rosenthal

    liquefeita em silêncio outra vez. vez após vez. já se tornou um hábito ou forma de viver.

    a ti falo de tudo como no outro dia. o do desejo. afinal sempre o fiz. tu não. se eu perguntasse respondias. o mínimo. o possível. mas éramos dois corpos obrigados à separação e vivos ambos. então.

    depois silenciávamos e um olhar bastava para cada um entender que se ferira e ferira o outro no mal lidar com o facto de estar ali, mãos dadas e corpos a terem de ser alheios a isso.

    os amores têm corpo. não terão só, mas têm - se até o amor de mãe tem colos de anjo...

    liquefeita em ausência e em silêncio embrulho-me na areia da margem. queria infiltrar-me nela. desaparecer assim.

    falta ainda tempo ao que parece. volto os olhos para o rio. não te vejo espelhado. à minha espera. sei que às vezes te ausentas. nunca soube para onde nem pergunto.

    irás chorar num canto o meu próprio desejo, como eu não sei fazer?