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21/05/2009

passo a passo

Desert_by_HIIA

queda em maciez de areia fina. que o vento logo empurra para os olhos e os pulmões. o ar rareia.

ninguém em volta. só vozes a esquecer. minutos a esquecer.

as costas doem. terá sido da queda em mar-deserto?


voltar ao barco por ora é impensável.

tem nos ouvidos a voz de morto-vivo do contra-mestre no convés.

- acorda. olha. faz. depressa. temos pressa em ver terra.

ele. que não veria terra nem por baixo dos pés!...

- dêem-lhe a garrafa de rum talvez assim se cale!

pensava o marinheiro em silêncio. em silêncio o gritou vezes sem conta até ser vencido. a vertigem. depois caiu ao mar. ao mar. deserto.

desert_horned_lizards_by_Blepharopsis


onde o oásis para deitar a cabeça a escutar água doce. corrente? e descansar.

será a etapa de hoje. o de hoje passo a dar.

em nenhum outro espaço se atreve a adormecer. por todo o lado há répteis à espera do fim. para atacar ou ocupar lugar até no crânio, do que vêem como carcaça velha.

os répteis são animais de sangue frio - pensa. - há que aquecê-los.

e começa a cantar:

*FIFTEEN MEN ON THE DEAD MAN'S CHEST. YO-HO-HO AND A BOTTLE OF RUM!


* in Ode Marítima - por Álvaro de Campos

26/04/2009

coisas de pó ao Vento

dust, originally uploaded by …Jæja.

da minha experiência de vida. ainda a tentar sintetizar:


há quem se cerque de gentes erradas por razões certas

daí que não escute as pessoas certas por... razões erradas.

30/03/2009

o último sorriso

"fragmento" foto de Marco Bragança


em meio ao deserto da vida de agora

quebrada. perdida. pedaço de mim

não espero. não busco os restos que tive

e me davam forma - concha de criança segurar na mão

como coisa boa para guardar de noite. baixo à almofada

a escutar o mar até vir o sono -


não me quero inteira. a inteireza dói e eu cansei de dor.


prefiro-me assim. fragmento informe. bocado de nada

que o vento e as marés tornarão areia de tanto o rolar.


depois sim. depois serei mais um grão que ninguém verá.

Cristo voltará a este deserto e eu, serei do chão que ele pisará

e quem sabe então. pela última vez, num instante breve, sorrirei

feliz!


16/02/2009

INTERVALO

work by carl gillette


para que tu não descubras

para que tu nunca saibas

para que não te pese

o que eu sou. o que eu sinto

para que tu não te escondas

me fujas ou respondas


encontro o meu casulo

fechada ainda essa porta. que ontem


por distração deixou sair o amor


eu continuo. sem ti.

26/11/2008

dito de costas para ti


now_i_see by Frank Grisdale



viro-me e oiço o vento

não sei nada de mim para além disto - viro costas ao vento!

e é nesse acto que me reinvento para re-existir

eu que morri para tantos. que lhes perdi a conta. ou o conto?

conto não de fadas. de demónios

quem os irá salvar?

encrontrarão sinónimos de si para iludir anónimos ouvintes

sim. sempre haverá


a sorte não nasce com a justiça

fabrica-se pela astúcia de uma mentira lúcida

até parecer___________verdade


13/11/2008

onda de rio

wave of river
foto de madalena pestana



dia de nuvens brancas. um rio que se escurece. maré cheia a ondular a água como se vento houvesse.

arredei-me do meio líquido um tempo atrás. sensibiliza demais a fragilidade dos meus nervos

faz-me crer numa paz que não existe. relembra ou cria amores. ondeia. embala a vida

tal qual um barco de madeira leve. só feito para brincar na margem. por crianças.

não posso dar-me ao luxo de brincar. não. porque dói nos joelhos-da-alma cada queda

mas o apelo da água é mais forte. aproximo-me quase até me molhar. cada salpico toca no meu sangue

subitamente soa uma harpa antiga no meu cérebro. cânticos tão esquecidos quanto vivos entoam em redor

e entro enfim na onda a aquecer-me do frio.


com medo ou não de amar eu volto ao rio

12/10/2008

segue-me no outono

follow me through the autumn



piso outonos. sonoros. resmalhantes


todas as folhas de papel já escritas amarelaram. como a minha pele

enrugaram

ao sol de muitos verões quentes de vida alucinante. alucinada


alucino________ a verdade de sorver cada gota restante


vida________ a minha. única. irrepetível


gotas. as do suor de estar atento a cada som. a cada asa vibrante


do vento________ onde te encontro. te repetes


autumn over a trunk of a rubber tree



meu tronco. minha força. meu segredo


minha esperança maior que deus quando chegar o medo


"Pai. porque me abandonaste?" - disse um Homem a um deus morto


entendo. mas família só sei de chamar Mãe, à Terra


e do teu último-recente olhar. que vi. silencioso. absorto


fixo em mim. meu amor. outono da minha ressurreição

antes do pó.


fotos de Madalena Pestana

09/10/2008

a fábula

photo at i190.photobucket




uivo desesperado.

a animal acossado até o som do vento faz tremer

apela aos seus. de longe. mas que espécie se ocupa hoje dos que vão tombar?


isso era em outros tempos. eram outras as feras

outros os caçadores. outras esperas...




fawn National Geographic




não esta espera porque agora vivo


presa fácil até do teu olhar que fere


pela indiferença que me atravessa inteira


defendo-me da dor. enrodilhando-me no próprio corpo


tu segues os caminhos do teu dia


o animal que sou respira. mais seguro


a mulher que em mim vive, fica só mais vazia





uivo a raiva de não saltar o muro


da minha___ assim___ inútil fantasia.



04/10/2008

madrugadas

the wind

foto de madalena pestana



e a esta hora. descabidamente. mais uma vez me faltas


como uma pena de ave falta ao vento. para o som inaudível


de rodopiar


23/09/2008

sangue-corrente

Fly by Pnina Evental


solto lastros


rasgo laços


não tenho teias


nas veias


só dou saltos


não dou passos


entro a rir


nas marés cheias


marés limpas


de sargaços


marés minhas


todas braços


todas dedos


que tacteiam


o teu corpo


os teus traços


os teus olhares


que volteiam


como eu danço


nos espaços


que nos cercam


que medeiam


a realidade


do sonho


de que tenho


o cérebro cheio


mais o que quero


o que anseio


para lá dele


e me cobre


como a pele




sê o vento


vem depressa


sê o tempo


que me interessa


não deixo


vidas a meio





12/09/2008

violência de onda ao Vento

wave-ocean-blue-sea-water-white-foam-photo


manhã. cedo demais para quem se deitou tarde e não pode ainda trabalhar. manhã. cedo demais. ergui-me com violência de onda, da cama onde dormia.


- a tensão ocular. cuidado!- a consciência a querer falar comigo. a consciência. tonta. devia já conhecer-me melhor.


é só o vento. disse à minha cadela que não estava. hábitos.


é o Vento. disse a mim própria e deitei-me depois de olhar as horas.


dormi o quanto pude. depois disso. dormi ao som do vento. das obras. das crianças do jardim infantil que dá para o meu quarto. dormi?


dormi.



image by Finch Yelliott


a tua mão no meu ombro. a minha mão sobre ela - é quanto lembro - a tua angústia - eu vou sair daqui! ninguém aqui me quer. - a tua angústia tinha som da minha. não era a minha.


- não pode. não pode. e eu? não conto?


- contas. mas é a hora de ir.


caminhávamos. um corredor afunilado. um corredor prisão. havia gente atrás. de ti. de mim só tu.


a minha mão sobre a tua. no meu ombro. começou a aquecer. acordei com dor de queimadura. a mão estava erguida na certa direcção.


fora da roupa. exposta. toquei-a. ardia. como se uma febre a tivesse acometido.


àquela mão. à mão que te tocara.


não voltei a dormir.


o que é que foi verdade neste sonho?


eu.

e a tua mão sobre a minha couraça?