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26/07/2010

Aleluia...

Foi-se um passado. Um passado passa? de facto?
Seja como for aleluia pelo presente. sem euforia, quebrado e frio o grito é : Hallelujah!


05/07/2010

o amor dói

Fate_by_andyshade

parecia destinada a ficar ali
num espaço sem verde na cor, sem luz e sem nada
o amor dói , love hurts, recordava
mas onde estava o amor que gerara e repartira?

aquele amor de paz que resulta
de quando uma mulher e um homem se dão.

perdera-o na neblina de insondáveis desígnios
impensáveis sentires de destruir

fosse como fosse o amor não estava já no horizonte
havia um deserto negro a atravessar

vieram as horas de cerrar os dentes
todas feitas raiva sem dó e sem som
veio ainda a dor que não é de amar
a dor do vazio, do nada, do espaço baço
do frio. do corte
de aço
da morte a um traço
a faltar
nada mais que
o passo
e a querê-lo
dar!

veio depois o puro sadio cansaço
a fazer parar

descansou o braço estendido e à espera
descansou os olhos do seu perscrutar
descansou a mente. mas não a memória a abarrotar

a seguir ergueu-se. apoio de parede
conseguiu-se erecta. coisa celular
já nada esperava
e já pouco queria
e passo após passo
liberta do laço
que ali a prendia
voltou a andar


o amor? o amor dói
mas é lá, à frente, que a dor vai passar.


MP

24/02/2009

Até um dia. Obrigada.

pixArmsShallows


todos os rios terminam no mar. este não é diferente. só o percurso é muito alcantilado. demora a lá chegar.

09/09/2008

estátua de amor

The turtle seemed a statue until the moment at I saw it in motion


a tartaruga parecia uma estátua antes de eu me afastar. nada a faria mover a não ser a minha ausência.

queria tanto ser como uma tartaruga. antiga. como ela. couraçada. como ela. não saber da palavra amor. nunca ter entendido a palavra sequer. como ela.

mas lembro-me de ti. todos os dias. mesmo assim recuso dizer-escrever de novo, a palavra misteriosa do sofrimento.

do sofrimento sim. nunca amei sem sofrer.

não direi amo-te a mais ninguém. talvez no fim. na hora do último olhar antes do escuro, atire um inaudível grito - AMO-TE!

se te chegar. do longe. um arrepio, sem que haja frio ou brisa, era para ti o grito.

nem assim escutarás a palavra amo-te dita pelos meus lábios. tu ou quem quer que seja.

amo em silêncio. porque sei que o silêncio me ama.

talvez por isso só me atreva a amar-te no sonho. pela noite. com a noite.

mas o sonho é o sonho. e reservo-me o direito de sonhar. até ao fim.


foto de madalena pestana

30/07/2008

o empurrão para o fim ____ e os Amigos.

image at photodelusions


quando me despenhei ___ julguei ter chegado a Hora

rolei encostas desfazendo a pele___ deixando lascas de músculo para trás

nas pedras da descida


quando me atiraram do penhasco


nem os braços estendidos____ dos amigos____nas margens

me permitia ver.


Ro-do-pio

ver-ti-gi-no-so!


cega a tudo que não fosse aquele rolar. esfacelante. encosta abaixo


image by trinchetto



ao deixar de pensar reergui a cabeça. mais à tona de água


não há descidas infinitas. não há inferno sem paz. por fim.


a planície acolheu-me e os braços dos amigos____ ramadas estendidas


nunca


tinham deixado de estar lá.


sei agora o sítio exacto aonde estão e quantos são.


árvores benditas


a impedir que voltem a fazer-me____transbordar.



24/06/2008

por dentro dos rios. a alma

image by jensenl


hoje os meus rios. os meus. não os da Terra. outra mãe.

incendiaram e ensobraram o mar


nem o por do sol lhe dava aquela cor que vi antes de virar costas

e subir. alma acima. até ao impossível de mim


hoje todos os meus escritos se apagaram. pelo fogo

e correram nas águas. feitos pó. como eu quero correr


ao chegarem ao mar. ardiam. da minha alma em chama

foi o início da morte sem um rasto. sem um resto. sem um gesto


sem deixar nada que possa fazer com que me matem

com que voltem a matar-me. uma e outra vez.


bendita hora.

e só o mar a sabe. ele. os deuses. e eu.


mas eu?

aonde estou?

importa? - claro que não. desci ao mar. por dentro dos meus rios.

07/03/2008

peso de pedra

image by Thomas Hawk


peso de pedra ter a minha idade

idade quase pedra. de nascença.

aos ombros vidas de tantos passados

nos olhos palcos de tantos actores

na cabeça mil histórias por contar

a netos de outros colos

na alma um desapego à vida

um ar de adeus. desejo de partida



peso de pedra não temer a verdade

de estar sozinha mesmo em frente ao fim

seja definitivo ou eternidade

escondida ao nosso olhar de nada ver.


02/03/2008

engraçado, olha o fim.

Image by © Burstein Collection CORBIS


vivemos o fim.

tudo estava previsto e fizemos tudo para o confirmar
com uma apatetada inconsciência de criança
com um sorriso sem causa nos dentes bem cuidados
nas gengivas escovadas no branqueado da boca como da vida

e o fim chegou.

suavemente como o tropel dos cavalos apocalípticos
e não queremos vê-lo
e não nos abraçamos no amor da despedida
e acenamos as mãos tratadas uns aos outros sem os ver´
e compramos a última moda de roupa para usar no fim
e sorrimos
sorrimos ao fim
que pode até ser urgente, inevitável, necessário
mas graça, isso não tem.

19/11/2007

chuva no deserto

thirsty by Dario Menasce


a chuva chega a aliviar o caudal seco do rio dos meus nervos

há uma solidão de pedra nas gentes em volta. o cinzento traz isso

a quem ama a cidade e o cimento-cerco onde me perco como num deserto

respiro lento. bebo a humidade como as árvores empoeiradas de obras

gordurosas de óleos sufocadas de gases poluentes. respiro.


- lembro-te

pouco nos importava que chovesse e desabasse o mundo sobre nós

tanto se nos dava que fosse o sol escaldante nos areais sem norte

criávamos oásis ou abrigos com a imaginação

dadas que estivessem as mãos nada nos impedia de seguir rastos de água


- lembro-te

meu rio de sangue-vida. meu bordão de viagem. meu senhor e meu pajem

lembro-te e volto ao nosso rio sem rumo ou sequer margem

entro nele e mergulho sem saber quanto futuro ainda há por vir

só sei que estarás comigo até ao fim mais do que eu pude estar

morrerei a sentir e a amar. farás comigo a última viagem


- lembro-nos e sorrio


no corredor alguém diz em voz alta que faz frio – eu não o sinto...

viverei ainda no mesmo planeta ou persigo-te já na cauda de um cometa?