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29/12/2008

23/12/2008

Bom Natal, Meu Mar!

image by Ed Gordon


do meio da escuridão eu ansiava

_______te

vislumbrava a cor que não sentia

_______ e queria


carcorreei silêncios

fui ninfa de encarnados

e negros fumos nos cabelos

_______ só


art by Eyvind Earle



dei mágicas braçadas _______ em espírito

na tua direcção _______ não te alcancei


fire at sea by john reid



chego tarde ao viver _______ coisa de sempre

mas havia fogo no mar

se eu nadasse mais. um pouco mais


_______ até cair na praia

uma faúlha viva-solta chegaria até mim

_______ se.

06/10/2008

pianíssimo

Waiting For You by Renee Jinkins



a espera é um nome enrolado em tempo


tempo velho como manta de avô


a espera tem a medida de quem a vive


de tanto esperar sonho e falo contigo


fiz um poema longo que ainda me entoava ao acordar


"realidade.realidade.realidade...." pianíssimo agora - "realidade.realidade...."


entremeavas compassadamente - "facto.facto.facto"


ao despertar só me sobrara isto. a vizinha abriu-me para o dia


com o som odioso dos sapatos que a fazem parecer um elefante em pontas


tu esfumaste-te. com outro rosto já


facto? mas que facto? se o que tenho não é mais que ilusão


terceira idade da memória de querer. de ser. de desejar



eram só 6.30 da manhã. cedo demais para o banho matinal


tarde demais para readormecer. ficou-me mais um poema por viver.

17/09/2008

ricos riscos

foto by R Dichavičius


arrisco por fim sair do escuro

acendo o dia. com o olhar mais velho mas atiçado pela vontade de viver

maior

que a antiga vontade de sair da terra para um espaço qualquer


re.encontro

outro risco. temo. anseio. sei-o

e se não for aquele que conheço?



chegou primeiro a voz. a ironia. o riso subjacente

rostos impermiáveis ao gostar

mais outra gente. sempre. tão um minuto a sós seria bom



arrisco olhar-te bem. dentro dos olhos

deixo-me a alma entrar-lhes. saio arriscada.mente a rir



não piso o risco

olho-o . meço-o

o beijo. esse. peço-o


adolescente a gostar de ser assim



foto by Pascal Renoux


noite

alma em ebulição

alívio da descrença

era verdade aquilo que sentia. posso rir alto. agora. divertida

deito-me. lembro. quero


deixo-te. é o costume. a minha mão estendida...


16/07/2008

há rios que salvam

foto madalena pestana


a casa intemporal que usei na vida

cobriu-a o verdete do tempo e as trepadeiras sugadoras de sangue verdadeiro

foram-se o tecto e as paredes. fiquei a céu aberto.

de início não me pareceu mau. ainda havia ar

o indispensável ar que revigora o cérebro de quem pensa.

mas pensar é um acto subversivo. mais agora. outra vez.

vieram as pessoas-peste. apocalípticas. envenenaram até essa riqueza que sobrara.

não me restou mais nada. só a memória de sonhos alimentava ainda quem eu fora.



image by James Newman


sobrevivência.

escrevo a cor das paredes com os olhos da imaginação. visto-as a mar espuma e areia quente. durmo.

ao dormir poupa-se muito ar. escapo assim ao envenenamento e ao inverno frio.



image by owlpen

acordo.

abriram uma janela na casa que inventei. entra por lá o sol que eu já nem via. tinha cegado (cegado por vontade de não querer ver mais ?) e a luz reaquece a minha alma. as plantas reverdecem.

agora há sombras apenas onde o sol as quiser.


a casa tem volume. existe. realmente.


aprendo uma nova realidade: a minha casa é o espaço aonde, em paz com o amor e a verdade, me deixarem viver.


segue o curso sinuoso do meu rio.

corro. sei que há rios que me alargam o caudal e é urgente encontrar.


15/07/2007

manta de água

image by Hervé Mitko


enrolo-me na manta do silêncio. sabe bem recordar. dias de chuva ou seca. brincadeira de ar livre. brincadeira sim, que os pobres também brincam. brincam por vezes mais, com imaginação. fazem barcos à vela com os lenços das mães para navegar nas poças de chuva. rios de chuva a correr para o mar.

onde nos desencontrámos nessa idade? nascemos em datas erradas. errados tempos. até os tempos jogaram contra nós. mas não o tempo. esse acabou por juntar-nos.

tarde? cedo? a tempo ainda de viver a dor.

silence by Monika Brand

é agora o silêncio o que mais fala.

vivemos de silêncios por dever de vida. assim continuamos rio adentro, correndo para a morte.

e no entanto oiço tão nítida em mim a tua voz. és uma luz audível. colorida como um lírio do campo em antecipada primavera.

voz de lírio ensinaste-me a luz perdida em desencantos. em carência de amor até chegar o teu.

aconchego ao corpo a manta de água. aconchego-te a mim. água de vida.

02/07/2007

dureza. quente.

image at ibanorum.netfirms

descansando em pedras. dureza na carne, mas calor de sol. pausas necessárias ao continuar.

há pontes por sobre os rios que percorro. gentes sobre as pontes. vejo-as passar. aprendendo gentes aprendendo vida e morte num único lance dos olhos clareados , quase cor da água.

curioso: as gentes nem olham o rio. em que pensarão? passam, tão absortas, sobrecarregadas de mundo e de terra firme. como será isso?

não passo da margem. nem quero passar. hoje que já sei como viver na água não me quero em terra para não me sujar de negras ideias, de gente-negrume, de vozes ruído sem nada a dizer.

adormeço em pedras. que quentes que são quando foram expostas ao sol que ilumina tudo o que é da raça de ser e crescer!