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26/07/2010

"bebe o mar, Xantós!"


miss_you____by_gutku

tanto tempo a fugir para a beira de água. fugir como para braços de mãe. quentes.

brincar com pedras conchas mas sem gente. ouvir as ondas. furá-las e voltar

para terra firme. o mar é tão profundo como o céu deve ser. não me aventuro a mais que rios

eu sou de ver. não de engolir o mar. "bebe o mar, Xantós!" vem-me à cabeça o teu grito na fala de Esopo

a tua voz de homem de Liberdade e de coragem. separado pelo rio. na outra margem

separado de mim que tanto te amo agora como dantes. calo. a lágrima foge...


hoje, como tu nessa altura, tenho a garganta fechada ainda ao grito por dar. seca. calada

só à espera da hora. a hora certa do cansaço chegar a fazer subir a raiva à boca

até ao grito que me mate mas sacuda esse bando baço prepotente medíocre

do qual um povo morre de medo outra vez (o desemprego, o patrão, a fome)


brinco com pedras conchas ondas sons maresias gaivotas (mas até essas gritam com as marés)

e como a minha sobe!

quando o grito chegar será o grande inesquecível e final espectáculo

haverá alguém que me escute. que me siga. que me ignore ou dispare

mas nunca que me dome!




a ti.

25/07/2010

Sinais dos tempos - Alerta!

What_for__by_LOVELLIEXOX

A nível laboral, neste momento, vive-se num "salve-se quem puder".
Os menos competentes praticam a denúncia do que assistem ou inventam sobre colegas. Depois, seja qual for o estatuto, surgem os "capatazes" de escritório, de..., de... por todo o lado. Que escravizam e humilham até levar a "presa" à exaustão. Normalmente conseguem.

As "baixas" por depressão crescem todos os dias. Há psiquiatras "à beira de um ataque de nervos" por quase não conseguirem dar resposta a tanta procura.
Não falo em sentido figurado. São factos.
As mulheres adoecem e os homens suicidam-se.

É preciso agir antes disso!

Denunciem.

21/05/2009

passo a passo

Desert_by_HIIA

queda em maciez de areia fina. que o vento logo empurra para os olhos e os pulmões. o ar rareia.

ninguém em volta. só vozes a esquecer. minutos a esquecer.

as costas doem. terá sido da queda em mar-deserto?


voltar ao barco por ora é impensável.

tem nos ouvidos a voz de morto-vivo do contra-mestre no convés.

- acorda. olha. faz. depressa. temos pressa em ver terra.

ele. que não veria terra nem por baixo dos pés!...

- dêem-lhe a garrafa de rum talvez assim se cale!

pensava o marinheiro em silêncio. em silêncio o gritou vezes sem conta até ser vencido. a vertigem. depois caiu ao mar. ao mar. deserto.

desert_horned_lizards_by_Blepharopsis


onde o oásis para deitar a cabeça a escutar água doce. corrente? e descansar.

será a etapa de hoje. o de hoje passo a dar.

em nenhum outro espaço se atreve a adormecer. por todo o lado há répteis à espera do fim. para atacar ou ocupar lugar até no crânio, do que vêem como carcaça velha.

os répteis são animais de sangue frio - pensa. - há que aquecê-los.

e começa a cantar:

*FIFTEEN MEN ON THE DEAD MAN'S CHEST. YO-HO-HO AND A BOTTLE OF RUM!


* in Ode Marítima - por Álvaro de Campos

26/11/2008

dito de costas para ti


now_i_see by Frank Grisdale



viro-me e oiço o vento

não sei nada de mim para além disto - viro costas ao vento!

e é nesse acto que me reinvento para re-existir

eu que morri para tantos. que lhes perdi a conta. ou o conto?

conto não de fadas. de demónios

quem os irá salvar?

encrontrarão sinónimos de si para iludir anónimos ouvintes

sim. sempre haverá


a sorte não nasce com a justiça

fabrica-se pela astúcia de uma mentira lúcida

até parecer___________verdade


19/07/2008

Intervalo

Strategy of the spider or just a blind grub ?

foto de madalena pestana

Estratégia da aranha ou só uma larva cega?

II - The spider knew how to attract naive insects for an attractive and round flower  ...

foto de madalena pestana


a aranha sabia como atrair insectos ingénuos para uma casa redonda e apetecível...


________


o fim da história?


- ainda está por contar.





Paroedura stumpffi eating spider at bluechameleon.org


_______


fim do intervalo




20/10/2007

animais de águas turvas

na rua havia sol. o café tinha de ser lá fora ela não o tomava e no quase vazio da casa não o vi. aliás prefiro bica.
fui ao café da esquina. falei dela. que não a têm visto. a senhora daqui só leva sumos e água das pedras, bolos só muito raramente - o dono - diz que o açucar ás vezes lhe faz falta e depois a enjoa - e lá se foi a atender cliente. pego à toa mais uma folha de caderno quadriculado A4. tanto se me dá a ordem dos dias desornedados que viveu. quero é ler.



no Verão há quase sempre um pouco mais de paz. pelo menos até hoje. com a filharada toda, os meus os teus e os nossos, a entrar e a sair na alegria da quinta ou nas idas para a praia, sem aquele casarão a promover distãncias, ele deixa o álcool-depressão e, nada sóis.

com a mãe ausente e a não poder augurar futuros abaixo de sinistros e os filhos a dormir o sono justo da correria à solta, sentados em volta da lareira apagada, claro, mas mesmo assim ainda aconchegante, surge o inesperado da boca do meu homem:
- hoje tive um convite mais que estranho, já lhe disse?
- não.
não fiz perguntas. com ele bastava sempre só esperar. não nos mentíamos. amantes, embriaguez, de tudo ele acabaria (e acabou) sempre por me falar. era o seu jeito de ser casado comigo.
- estava eu no emprego quando a sua irmã me ligou a propor um almoço em casa dela. fiquei quase de cócoras de pasmo, pois se aos dois juntos ela nunca convida... porquê agora consigo aqui na quinta?
que era para eu não me sentir sozinho apressou-se a dizer. não fosse ela um carro de assalto, como você lhe chama e eu pensaria que me queria...
- engatar? e porque não? você é meu, é célebre e tem nome sonante. além de ser um espanto de homem, mas isso não sei se cabe na avaliação dela. porque não?
- bem, ela é sua irmã...
- pois. cada um nasce com o seu calvário. oiça amor , ela é bicho que caça em águas pantanosas e nem que eu desgastasse a mente e espremesse as meninges até as rebentar a conseguiria entender mais do que já disse. deu-lhe corda quando ia lá a casa agora...

- que é que quer ela fazia-me rir e ... é sua irmã.

- também o Abel e Caim eram...

não pensei mais naquilo até lhe encontrar o caderno onde isto ficou escrito "por causa dos outros também"*. tínhamos muito amor à nossa espera durante o sono doce das crianças.
mais tarde apercebi-me dos riscos de menosprezar um animal de sangue frio. mas nunca é tarde demais senão depois da morte e mesmo assim, depois da morte, sei eu lá.



*José de Almada Negreiros

10/10/2007

por causa de uma notícia de jornal (ou será de uma foto?)


    image by Madalena Pestana


    olhando nessa direcção hoje sinto o que não é meu de sentir. de novo.

    tudo parecia já adormecido. nem falara dos corvos, vê lá tu. interrompi blog após blog quando o pensamento se virava para ti. fugi vezes sem conta de fazer o que era inevitável desde há anos: matar-te!

    deixei até de conduzir quando a tentação que tive ao ver-te uma vez num cruzamento, me fez carregar no acelerador. não tive dúvida aquilo nao tinha outro nome, era ódio. louco, desvairado, incontrolável já.

    não quis ser eu a mão. não quis ser eu a arma. e nem te dei o luxo de ser eu a voz. tu havias de fazê-lo por mim.

    quase morri da espera. nem gritar eu gritei. ninguém me ouviu. sobretudo não tu. a ti fui vigiando os passos, hora a hora mais previsíveis. oh, como eu te conheço!

    e ontem quando, já distraída, mal te sabia ainda a existir atiram-me o teu lixo para o colo. a náusea recrudesceu mas nem aí gritei.

    silêncio. o silêncio é uma arte que nunca cultivaste. desconheces-lhe o som. mas soa tanto e alto!

    mais alto que os verbos que conheces: vencer. exibir. espezinhar. bajular. os verbos com que se ganha a vida muita vez...

    mas hoje alguém gritou. um grito saudável que (sem que o saibas ainda) furou, com o som estridente, o balão que tu és. eu respirei. de alívio por não ter sido meu o grito contra ti. de alívio porque houve o grito. de alívio porque acabaste de morrer e vais continuar a arrastar a vida por aí convencida de que vives e não há salvação para o mundo sem ti.

    a deus.

    RIP.