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31/12/2007

hoje, 31 de dezembro de 2007


image by Estelle Judah

hoje gravo o que escrevo como se fosse o último dia a respirar.
hoje vou-vos contar:

- vivi por oito anos beira à morte num abandono de ninguém explicar

replecto de silêncio conveniente. o silêncio a esperar de quem é civilizado

e louco ao mesmo tempo - vejam lá...

silenciei.

pelos filhos. pela memória do homem que lhes deu o nome e por mim.

(por mim? mentira e, eu não sei mentir!)

louca? sim. não mais que muita gente sou e medicada e tudo, por isso, controlada.

mas hoje vou deixar de tomar os comprimidos (a pílula prateada. ahaha!)

hoje prometo aqui não voltar a pensar em suicídio só para ficar calada.

que se dane quem para aí me atirou (e foram vários!).

um louco não é parvo, desenganem-se. um louco só olha, muitas vezes, frontalmente, o que os de mais tentam olhar de lado por medo - o branco-medo da cegueira.

image by madalena pestana


hoje, agarrando com força um pedaço da terra que te acolheu, meu Homem, e me acolherá, juro:

este ano, poderá ser o último. poderei ir viver baixo a uma ponte pelo que disser ou o que fizer, mas ninguém, nunca mais me calará!

voltarei a ser a mulher que conheceste e amaste - de sempre a sempre - lembras?

então assim será!




(escrito a pensar apenas, ou quase, em Nuno de Bragança)

07/11/2007

aniversário

image by Part Gibson

juventude de querer matar a vida. não suicídio. a vida totalmente. não a pedi e deram-ma sem querer. não entendi. nunca hei-de entender. ser mãe tem de ser acto cúmplice entre quem concebe e quem está por nascer.

assim o foi comigo por três vezes. assim seria tivessem sido seis.

mas não nasci assim. olharam-me e pediram perdão por eu ser mulher. como se mais importante do que um filho, fosse o agrado ao marido que desejava um homem para lhe manter o nome à flor da Terra.

ele sorriu. contaram-me cem vezes e condenou-me à exclusão por dizer, o santo poeta - não faz mal, Maria , ela ainda é mais bonita que a primeira.

não era isso que ele queria dizer, mãe. não entendeste. queria só aliviar-te do desgosto de não ser eu o rapaz desejado. não era dizer mal da filha que criavas há mais de dois anos o que queria. que é isso de ser bonito, mãe? todos os meus filhos são os melhores do mundo. Mãe. entende agora. ainda é tempo!



image by karlc

por isso estatifiquei a correr para ti, pai. e hoje a dois dias da data que nunca celebro, arranco os pés do chão na esperança de chegar a tempo de te abraçar no dia exacto do meu aniversário.

aí pesca-se, pai? aí há circo e bola? e manifestações proibidas onde irmos escondidos para não ralar ninguém? aí há barbeiros que cortem o cabelo à la garçonne para voarmos de moto, a seguir, sem cabelo a estorvar?

mesmo que não haja nada disso, deixa-me ir abraçar-te pai. tenho tanta saudade de te sentir amar-me!

sabes pai, o mundo está doente e eu ando tão perdida no meio de toda a gente...