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12/02/2009

"Bicho, meu lindo Bicho!" Não parece que foi ontem. Foi Hoje.

pink pansy
foto de madalena pestana dedicada a Nuno Bragança

"À descoberta de Nuno Bragança

Nem livro nem página em branco: a vida e a obra do escritor Nuno Bragança, nascido há 80 anos, continuam, ainda, demasiado desconhecidas.
(...) Nuno Bragança era um e vários, memória pessoana (...)" por Sílvia Souto Cunha em Visão - Cultura, Figura. (12 de Fev. de 2oo9 - pág 100)

A este texto, dos melhores que li, pelo que conheço do autor, e mais se aproximou (por não tentar parecer saber o que , de facto, não sabe) e, com o apoio do filho, Manuel Luís de Bragança, "o mais velho dos cinco filhos do autor", urge só uma pequena adenda: o nome dos outros filhos ou "os nossos putos" como ele, Nuno, preferia chamar-lhes: Maria de Bragança, Teresa de Bragança, Marco de Bragança, Leonor de Bragança (os dois últimos, filhos dele e da sua segunda mulher).

___*___

assim, meu Bicho, a lista está completa e, se a noite perdura, ainda ouço a tua gargalhada estridente no ar. o teu Riso. como agora. sempre que sabes porque digo o que digo.



PS. "Isto anda tudo ligado" - tu, citando Tolstoi.

e... ter nascido no dia de Darwin, Homem?

até já.

Magda

21/02/2008

auto-retrato

image at haloimages.com


o pai pegou-lhe ao colo

a mãe ergueu-lhe os pés do chão



quando aprendeu a andar

mesmo olhando-a nos olhos

nunca mais a conseguiram ver

07/11/2007

aniversário

image by Part Gibson

juventude de querer matar a vida. não suicídio. a vida totalmente. não a pedi e deram-ma sem querer. não entendi. nunca hei-de entender. ser mãe tem de ser acto cúmplice entre quem concebe e quem está por nascer.

assim o foi comigo por três vezes. assim seria tivessem sido seis.

mas não nasci assim. olharam-me e pediram perdão por eu ser mulher. como se mais importante do que um filho, fosse o agrado ao marido que desejava um homem para lhe manter o nome à flor da Terra.

ele sorriu. contaram-me cem vezes e condenou-me à exclusão por dizer, o santo poeta - não faz mal, Maria , ela ainda é mais bonita que a primeira.

não era isso que ele queria dizer, mãe. não entendeste. queria só aliviar-te do desgosto de não ser eu o rapaz desejado. não era dizer mal da filha que criavas há mais de dois anos o que queria. que é isso de ser bonito, mãe? todos os meus filhos são os melhores do mundo. Mãe. entende agora. ainda é tempo!



image by karlc

por isso estatifiquei a correr para ti, pai. e hoje a dois dias da data que nunca celebro, arranco os pés do chão na esperança de chegar a tempo de te abraçar no dia exacto do meu aniversário.

aí pesca-se, pai? aí há circo e bola? e manifestações proibidas onde irmos escondidos para não ralar ninguém? aí há barbeiros que cortem o cabelo à la garçonne para voarmos de moto, a seguir, sem cabelo a estorvar?

mesmo que não haja nada disso, deixa-me ir abraçar-te pai. tenho tanta saudade de te sentir amar-me!

sabes pai, o mundo está doente e eu ando tão perdida no meio de toda a gente...

27/10/2007

filho, eis o teu pai.

image by Eric Boutillier Brown


vi-te enfrentar mares enfurecidos
como se a vida tivesse começado ali

querias um filho como quem quer o céu

e por ele deixaste o vício-morte
e por ele me amaste a cada canto
a cada hora fértil. como os animais
que são sábios a preservar a espécie

vi-te vê-lo chegar como rei orgulhoso
que pode dar ao povo o sucessor
como se fosse o teu filho primeiro

se pudesses tê-lo-ias parido
(isso se os homens suportassem a dor)

escrevo isto a rir como naquele instante
em que o ouvi chorar com um alívio enorme
ah como a dor já me estava distante !

homem do mar, por ele foste forte.
e eu voltei a ser o que nasci para ser
apenas mãe
esse nome carregado de vida. até à morte.

memórias que não pesam


um título. um poema, nos papéis de Maria. umas palavras antes.

image by Konrad Ciok

não me roubem as memórias por favor. não tenho rosto já. mas sei ainda muito bem quem sou. o de onde vim e o para onde vou.

o Estudante Alsaciano. decorei de rajada depois de querer entender palavra por palavra. nunca fui papagaio. disse-o muitas vezes. com raiva. quase a sentir o pai morto na guerra. sabia o que dizia e aonde ia. não me arrastaram a lado nenhum.

havia o Lenine, na Quinta da Lomba. tinha um pai enlouquecido pela pide e eram, claro, comunistas os dois.

enquanto a rapariga das tranças fingia gostar de bordar e escutava a mãe entre panelas e feijão verde, desvendávamos matas, o Lenine e eu.

- madalena, amanhã aquilo pode ser perigoso. não para vocês. mas para mim pode e muito. o teu pai quis que soubesses ao que ias ou não irias mesmo. tens a certeza que queres ir?

- é pela liberdade. quero e vou!

enquanto eu batia a mão no peito no final do poema, com a força de quem ama a terra onde nasceu, os homens batiam palmas. poucas mulheres mas também as havia. expressões duras.

lá em baixo, na cave, o Lenine português e os outros, corriam risco de ser presos. eu sabia. não depois. na hora. naquela hora. voltámos pelo esgoto abandonado desde o Lavradio até a casa. os homens murmuravam. estava escuro e eu tinha sono já.

algum tempo depois, o meu amigo foi preso. quis ver-me, na cadeia. vim a Lisboa com a mãe dele. à capital pela primeira vez e a visitar um preso. depois disso não o veria mais. tive pena. fazia muito bem pernas de rã que apanhávamos nos charcos.

teria ido viver para a Rússia foi o que constou nas bocas das mulheres. baixinho. na mercearia única (?) do bairro.

quando fui à Rússia pedi para o ver. sabiam dele sim mas... não o encontraram...

parti de lá com a certeza de que não há ditaduras diferentes. todas são más.

pobre rapaz condenado à nascença por um nome.


alsace-lorraine at media.tsmm.net

Antigamente, a escola era risonha e franca.
Do velho professor as cãs, a barba branca,
Infundiam respeito, impunham simpathia,
Modelando as feições do velho, que sorria
E era como criança em meio das crianças.
Como ao pombal correndo em bando as pombas mansas,
Corriam para a escola; e nem sequer assomo
De aversão ou desgosto, ao ir para ali como
Quem vai para uma festa.

Ao começar o estudo,
Eles, sem um pesar, abandonavam tudo,
E submissos, joviais, nos bancos em fileiras,
Iam todos sentar-se em frente das carteiras,
Atenta, gravemente — uns pequeninos sábios.
Uma frase a animar aquele bando imbele,
Ia ensinando a este, ia emendando áquele,
De manso, com carinho e paternal amor.

Por fim, tudo mudou.
Agora o professor,
Um grave pedagogo, é austero e conciso;
Nunca os lábios lhe abriu a sombra d’um sorriso
E aos pequenos mudou em calabouço a escola
Pobres aves, sem dó metidas na gaiola!
Lá dentro, hoje, o francês é lingua morta e muda:
Unicamente o alemão ali se fala e estuda,
São alemães o mestre, os livros e a lição;
A Alsácia é alemã; o povo é alemão.
Como na própria pátria é triste ser proscripto!

Frequentava também a escola um rapazito
De severo perfil, enérgico, expressivo,
Pálido, magro, o olhar inteligente e vivo
— Mas de íntima tristeza aquele olhar velado
Modesto no trajar, de luto carregado...
— Pela pátria talvez!
— Doze anos só teria.
O mestre, d’uma vez, chamou-o à geografia:
— "Dize-me cá, rapaz... Que é isso? estás de luto? Quem te morreu?"
— "Meu pai, no último reduto, Em defesa da pátria!"
— "Ah! sim, bem sei, adiante...
Tu tens assim um ar de ser bom estudante.
Quais são as principais nações da Europa? Vá!"
— "As principaes nações são... a França..."
— "Hein? que é lá?... Com que então, a primeira a França!
Bom começo! De todas as nações, pateta, que eu conheço,
Aquela que mais vale, a que domina o mundo,
Nas grandes conceções e no saber profundo,
Em riqueza e esplendor, nas letras e nas artes,
Que leva o seu domínio às mais remotas partes,
A mais nobre na paz, a mais forte na guerra,
D’onde irradia a ciência a iluminar a terra,
A maior, a mais bela, a que das mais desdenha,
Fica-o sabendo tu, rapaz, é a Alemanha!"

Ele sorriu com ar desprezador e altivo,
A cabeça agitou n’um gesto negativo,
E tornou com voz firme:
— "A França é a primeira!"
O mestre, furioso, ergue-se da cadeira,
Bate o pé, e uma praga enérgica lhe escapa.
— "Sabes onde está a França? Aponta-m’a no mapa!"
O aluno ergue-se então, os olhos fulgurantes,
O rosto afogueado; e enquanto os estudantes
Olham cheios de assombro aquele destemido,
Ante o mestre, nervoso, audaz e comovido,
Timido feito herói, pigmeu tornado atleta,
Desaperta, febril, a sua blusa preta,
E batendo no peito, impávida, a criança
Exclama: — "É aqui dentro! aqui é que está a França!"


Acácio Antunes