Mostrar mensagens com a etiqueta Liberdade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Liberdade. Mostrar todas as mensagens

26/07/2010

"bebe o mar, Xantós!"


miss_you____by_gutku

tanto tempo a fugir para a beira de água. fugir como para braços de mãe. quentes.

brincar com pedras conchas mas sem gente. ouvir as ondas. furá-las e voltar

para terra firme. o mar é tão profundo como o céu deve ser. não me aventuro a mais que rios

eu sou de ver. não de engolir o mar. "bebe o mar, Xantós!" vem-me à cabeça o teu grito na fala de Esopo

a tua voz de homem de Liberdade e de coragem. separado pelo rio. na outra margem

separado de mim que tanto te amo agora como dantes. calo. a lágrima foge...


hoje, como tu nessa altura, tenho a garganta fechada ainda ao grito por dar. seca. calada

só à espera da hora. a hora certa do cansaço chegar a fazer subir a raiva à boca

até ao grito que me mate mas sacuda esse bando baço prepotente medíocre

do qual um povo morre de medo outra vez (o desemprego, o patrão, a fome)


brinco com pedras conchas ondas sons maresias gaivotas (mas até essas gritam com as marés)

e como a minha sobe!

quando o grito chegar será o grande inesquecível e final espectáculo

haverá alguém que me escute. que me siga. que me ignore ou dispare

mas nunca que me dome!




a ti.

18/06/2008

desenho livre

at hometown.aol

passo pela vida como quem toca as teclas de um piano
ora de leve. ora com a intensidade que a pauta me impõe

mas sou eu quem escreve a sinfonia

sou autora da música que toco para todos os ouvidos
ou para toda a surdez. tanto me faz

os rios correm para o mar. eu para a morte
mas os rios e eu circulamos encostas

fazemos desenhos na terra

desenhamos livre. despenhamo-nos. corremos
manso. pelas planícies sonhadas e as reais


nada me trava o curso a não ser o meu fim
nada trava os meus rios a não ser a fusão

desejada

com a imensidão cheia de segredos. meus. deles. do mar
do nosso amado mar


que também não dá contas a ninguém
enfurece-se e inunda. ou dá paz ao olhar. numa praia. de inverno


à minha hora. a caminho da noite. a caminho do sonho. sem dormir

27/10/2007

memórias que não pesam


um título. um poema, nos papéis de Maria. umas palavras antes.

image by Konrad Ciok

não me roubem as memórias por favor. não tenho rosto já. mas sei ainda muito bem quem sou. o de onde vim e o para onde vou.

o Estudante Alsaciano. decorei de rajada depois de querer entender palavra por palavra. nunca fui papagaio. disse-o muitas vezes. com raiva. quase a sentir o pai morto na guerra. sabia o que dizia e aonde ia. não me arrastaram a lado nenhum.

havia o Lenine, na Quinta da Lomba. tinha um pai enlouquecido pela pide e eram, claro, comunistas os dois.

enquanto a rapariga das tranças fingia gostar de bordar e escutava a mãe entre panelas e feijão verde, desvendávamos matas, o Lenine e eu.

- madalena, amanhã aquilo pode ser perigoso. não para vocês. mas para mim pode e muito. o teu pai quis que soubesses ao que ias ou não irias mesmo. tens a certeza que queres ir?

- é pela liberdade. quero e vou!

enquanto eu batia a mão no peito no final do poema, com a força de quem ama a terra onde nasceu, os homens batiam palmas. poucas mulheres mas também as havia. expressões duras.

lá em baixo, na cave, o Lenine português e os outros, corriam risco de ser presos. eu sabia. não depois. na hora. naquela hora. voltámos pelo esgoto abandonado desde o Lavradio até a casa. os homens murmuravam. estava escuro e eu tinha sono já.

algum tempo depois, o meu amigo foi preso. quis ver-me, na cadeia. vim a Lisboa com a mãe dele. à capital pela primeira vez e a visitar um preso. depois disso não o veria mais. tive pena. fazia muito bem pernas de rã que apanhávamos nos charcos.

teria ido viver para a Rússia foi o que constou nas bocas das mulheres. baixinho. na mercearia única (?) do bairro.

quando fui à Rússia pedi para o ver. sabiam dele sim mas... não o encontraram...

parti de lá com a certeza de que não há ditaduras diferentes. todas são más.

pobre rapaz condenado à nascença por um nome.


alsace-lorraine at media.tsmm.net

Antigamente, a escola era risonha e franca.
Do velho professor as cãs, a barba branca,
Infundiam respeito, impunham simpathia,
Modelando as feições do velho, que sorria
E era como criança em meio das crianças.
Como ao pombal correndo em bando as pombas mansas,
Corriam para a escola; e nem sequer assomo
De aversão ou desgosto, ao ir para ali como
Quem vai para uma festa.

Ao começar o estudo,
Eles, sem um pesar, abandonavam tudo,
E submissos, joviais, nos bancos em fileiras,
Iam todos sentar-se em frente das carteiras,
Atenta, gravemente — uns pequeninos sábios.
Uma frase a animar aquele bando imbele,
Ia ensinando a este, ia emendando áquele,
De manso, com carinho e paternal amor.

Por fim, tudo mudou.
Agora o professor,
Um grave pedagogo, é austero e conciso;
Nunca os lábios lhe abriu a sombra d’um sorriso
E aos pequenos mudou em calabouço a escola
Pobres aves, sem dó metidas na gaiola!
Lá dentro, hoje, o francês é lingua morta e muda:
Unicamente o alemão ali se fala e estuda,
São alemães o mestre, os livros e a lição;
A Alsácia é alemã; o povo é alemão.
Como na própria pátria é triste ser proscripto!

Frequentava também a escola um rapazito
De severo perfil, enérgico, expressivo,
Pálido, magro, o olhar inteligente e vivo
— Mas de íntima tristeza aquele olhar velado
Modesto no trajar, de luto carregado...
— Pela pátria talvez!
— Doze anos só teria.
O mestre, d’uma vez, chamou-o à geografia:
— "Dize-me cá, rapaz... Que é isso? estás de luto? Quem te morreu?"
— "Meu pai, no último reduto, Em defesa da pátria!"
— "Ah! sim, bem sei, adiante...
Tu tens assim um ar de ser bom estudante.
Quais são as principais nações da Europa? Vá!"
— "As principaes nações são... a França..."
— "Hein? que é lá?... Com que então, a primeira a França!
Bom começo! De todas as nações, pateta, que eu conheço,
Aquela que mais vale, a que domina o mundo,
Nas grandes conceções e no saber profundo,
Em riqueza e esplendor, nas letras e nas artes,
Que leva o seu domínio às mais remotas partes,
A mais nobre na paz, a mais forte na guerra,
D’onde irradia a ciência a iluminar a terra,
A maior, a mais bela, a que das mais desdenha,
Fica-o sabendo tu, rapaz, é a Alemanha!"

Ele sorriu com ar desprezador e altivo,
A cabeça agitou n’um gesto negativo,
E tornou com voz firme:
— "A França é a primeira!"
O mestre, furioso, ergue-se da cadeira,
Bate o pé, e uma praga enérgica lhe escapa.
— "Sabes onde está a França? Aponta-m’a no mapa!"
O aluno ergue-se então, os olhos fulgurantes,
O rosto afogueado; e enquanto os estudantes
Olham cheios de assombro aquele destemido,
Ante o mestre, nervoso, audaz e comovido,
Timido feito herói, pigmeu tornado atleta,
Desaperta, febril, a sua blusa preta,
E batendo no peito, impávida, a criança
Exclama: — "É aqui dentro! aqui é que está a França!"


Acácio Antunes