
tanto tempo a fugir para a beira de água. fugir como para braços de mãe. quentes.
a ti.
- "Não há um lado mau da vida: a vida é una" - Bernard Shaw photo - Ithaca by Arthur Durkee

os rios correm para o mar. eu para a morte
mas os rios e eu circulamos encostas
fazemos desenhos na terra
desenhamos livre. despenhamo-nos. corremos
manso. pelas planícies sonhadas e as reais
nada me trava o curso a não ser o meu fim
nada trava os meus rios a não ser a fusão
desejada
com a imensidão cheia de segredos. meus. deles. do mar
do nosso amado mar
que também não dá contas a ninguém
enfurece-se e inunda. ou dá paz ao olhar. numa praia. de inverno
image by Konrad Ciok não me roubem as memórias por favor. não tenho rosto já. mas sei ainda muito bem quem sou. o de onde vim e o para onde vou.
o Estudante Alsaciano. decorei de rajada depois de querer entender palavra por palavra. nunca fui papagaio. disse-o muitas vezes. com raiva. quase a sentir o pai morto na guerra. sabia o que dizia e aonde ia. não me arrastaram a lado nenhum.
havia o Lenine, na Quinta da Lomba. tinha um pai enlouquecido pela pide e eram, claro, comunistas os dois.
enquanto a rapariga das tranças fingia gostar de bordar e escutava a mãe entre panelas e feijão verde, desvendávamos matas, o Lenine e eu.
- madalena, amanhã aquilo pode ser perigoso. não para vocês. mas para mim pode e muito. o teu pai quis que soubesses ao que ias ou não irias mesmo. tens a certeza que queres ir?
- é pela liberdade. quero e vou!
enquanto eu batia a mão no peito no final do poema, com a força de quem ama a terra onde nasceu, os homens batiam palmas. poucas mulheres mas também as havia. expressões duras.
lá em baixo, na cave, o Lenine português e os outros, corriam risco de ser presos. eu sabia. não depois. na hora. naquela hora. voltámos pelo esgoto abandonado desde o Lavradio até a casa. os homens murmuravam. estava escuro e eu tinha sono já.
algum tempo depois, o meu amigo foi preso. quis ver-me, na cadeia. vim a Lisboa com a mãe dele. à capital pela primeira vez e a visitar um preso. depois disso não o veria mais. tive pena. fazia muito bem pernas de rã que apanhávamos nos charcos.
teria ido viver para a Rússia foi o que constou nas bocas das mulheres. baixinho. na mercearia única (?) do bairro.
quando fui à Rússia pedi para o ver. sabiam dele sim mas... não o encontraram...
parti de lá com a certeza de que não há ditaduras diferentes. todas são más.
pobre rapaz condenado à nascença por um nome.
alsace-lorraine at media.tsmm.net