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30/03/2009

o último sorriso

"fragmento" foto de Marco Bragança


em meio ao deserto da vida de agora

quebrada. perdida. pedaço de mim

não espero. não busco os restos que tive

e me davam forma - concha de criança segurar na mão

como coisa boa para guardar de noite. baixo à almofada

a escutar o mar até vir o sono -


não me quero inteira. a inteireza dói e eu cansei de dor.


prefiro-me assim. fragmento informe. bocado de nada

que o vento e as marés tornarão areia de tanto o rolar.


depois sim. depois serei mais um grão que ninguém verá.

Cristo voltará a este deserto e eu, serei do chão que ele pisará

e quem sabe então. pela última vez, num instante breve, sorrirei

feliz!


08/12/2008

vestidos a verde

image by Jacek Lidwin


cubro-me a verde. não de esperança _______ não espero

já é outro o sentir

mostro as rugas à terra _______ olhos nos olhos

confiança de filha na mãe única. de braços sempre abertos

de colo sempre ali



é uma espera longa. a de partir. e eu já não sei ficar


nada me prende


penso - ainda amo. e entristeço. de nada já isso me irá servir

cubro-me a verde _______ erva que o inverno permite sobre a lama

sem cantos de ave. um silêncio nocturno

e faço amor sonhando. como tantos

o outro corpo? nunca o encontrarei pele contra pele

talvez assim _______ na Terra. todo a verde coberto

talvez assim _______ num dia por haver

09/10/2008

a fábula

photo at i190.photobucket




uivo desesperado.

a animal acossado até o som do vento faz tremer

apela aos seus. de longe. mas que espécie se ocupa hoje dos que vão tombar?


isso era em outros tempos. eram outras as feras

outros os caçadores. outras esperas...




fawn National Geographic




não esta espera porque agora vivo


presa fácil até do teu olhar que fere


pela indiferença que me atravessa inteira


defendo-me da dor. enrodilhando-me no próprio corpo


tu segues os caminhos do teu dia


o animal que sou respira. mais seguro


a mulher que em mim vive, fica só mais vazia





uivo a raiva de não saltar o muro


da minha___ assim___ inútil fantasia.



03/08/2008

gata em muro fresco

foto by Stanislav Petera


o dia era de sol. indesmentível.

as gentes sorriam com um riso aberto e dentes de verão.

(a saia voava à brisa do rio)

sorria de volta. bom costume meu.

________________


a mulher na frente falava vazio

corpo seco. voz ansiosa de tudo. um protesto eterno


na boca franzida. falava. falava.


a água no copo quase aquecia. à voz de revolta.


vazia ela toda. costumeira já


eu fingia ouvir. fixava a distância com os olhos doridos


que de tanta luz pedem para dormir.



vi-te. ou ao teu vulto


não me enganaria - silencioso andar de gato siames


e ela falava. a água do copo dormia entre os dedos


que só desejavam estender-se para ti.


ficou-me o aroma da passagem breve


e a voz que deixaste no toque fugaz.


a mulher creio eu que calou por fim.



corri para o meu canto. depois para a rua


ânsia no esperar pede tanto mais!


procurei nos muros refrescar o cio


é só o calor. passa com o verão


miou para si própria a gata que sou


um miar gemido


repetido e oco.


sem convicção




02/01/2008

chove e é bom.

image by Yury S

cresce o alívio em mim. durmo na terra. confundo-me com ela. sinto-lhe o bafo frio de inverno mas quente de mãe. sei que me dá todo o calor que pode. a terra tem sempre algum calor para dar.

avanço no silêncio da noite e caio num sono sem pesadelos já. respirei fora. só me faltava isso. respirei fora o veneno que havia no fungo venenoso servido, com requintes, ao jantar.

"quem não sabe florestas não deve oferecer fungos". um último bocejo e o sono vence.

súbito a temperatura sobe. são quatro da manhã. a chuva cai como um rio em cascata e eu faço amor como quem reza ou chora de alegria.


image Lutz Behnke

numa partilha com o cosmos que me deu a água abençoada, ofereço-lhe o prazer e a energia do amor redondo, circular, de um corpo para outro e de ambos para deus.

é uma oferenda boa. é o milagre de saber estar vivo e pouco importa se estou a sonhar.