
tanto tempo a fugir para a beira de água. fugir como para braços de mãe. quentes.
a ti.
- "Não há um lado mau da vida: a vida é una" - Bernard Shaw photo - Ithaca by Arthur Durkee

e tudo se apaga. rocha atormentada. terá de viver ?
tem. ainda tem. o tempo é assim. dá tempos à vida que
ninguém entende.
e porque que é que a Vida, coisa de outros Mundos
se há-de entender?!
que peso atiraste nos meus ombros e não sei carregar?
passaram muitas águas. límpidas umas, negras de lama outras
a juntar-se ao rio transparente. que mal lembro. mas fui
antes que me sonhasses. me soubesses
vivi eu pesadelos de matar (e estarei viva?)
___*___
a minha esperança passou a usar o nome que tu tens
o pouco amor de que ainda sou capaz, usa-o também
todo o bem que ainda espero liga-se a ti
como a um cordão de mãe.
que foi que me fizeste?
como queres fazer reviver. dia a dia. o que por pouco
escrever é abrir uma porta para lado nenhum
quem escreve chega ao nada de si próprio
os que lêem ficam a saber os nadas escondidos
nas palavras
então para que escrever?
porque, para lá do mergulho no vazio
da palavra
abaixo. muito abaixo. corre um rio
e atinge-se o absoluto e ansiado
não fazer parte de nada
dos tempos ou do Tempo.


sei que uma chama
me atinge a liquidez gelada
fervo
mistura-se o vapor da fervura
ao nevoeiro. acresce-o
eu
cego ou quase
depois volto a olhar
do gato
só um miado doce vibra o ar
a garantir-me que ele esteve ali


as palavras insistem em não me abandonar.
perseguem-me como a terra segue o sol mas sem carência disso
por pura crueldade.
deito-me rio e acordo no Mar
mergulho e ergo-me ao lavar-me delas.
pois se as não sei usar para que me seguem e se colam à pele como um vestido velho?
se ao menos fossem estrelas...
depois de muito tempo. como se lhe fugisse. fui ver o sítio aonde os rios vão dar.
levei comigo um olhar novo. e todos os contornos foram novos, até o da serra que me viu nascer.
novo. bom é também este regresso breve. como quem chega a casa depois de viajar.
mas as minhas viagens levaram-me a memórias não queridas. ao escuro. ao invernoso desafecto dos rios que me saíram do corpo. como sangue quente.
- lembro ainda - cada vez mais esbatidamente. pudesse eu e esquecia. de vez!
venceram os amigos.
e desaguei no mar. que me acolheu.
é já com um sorriso que hoje escrevo. um sorriso de areia e vento e azul feito.
um sorriso de esperança. a renascer.
foto de madalena pestana
dizem - é o teu sangue. - não é. posto que o dei à terra
vindo de tantas feridas
que não as sei contar ____ nem por palavras
sei ____ vagamente ____ que uma dessas feridas me matou
quis ser fatal ____ quis ser ____ quis!
para viver precisou de matar
sei ____ vagamente
o sangue dei-o todo ____ ou quase
como pode ser meu?
vá. corre sangue. como de antes. nos canais de mim
fecharei as veias ____ quero fechar as palavras ____ outras feridas
corre para que possam dizer ___ já em verdade
que fui.
importa se ainda sou?
jorro a vida. fora.
os rios correm para o mar. eu para a morte
mas os rios e eu circulamos encostas
fazemos desenhos na terra
desenhamos livre. despenhamo-nos. corremos
manso. pelas planícies sonhadas e as reais
nada me trava o curso a não ser o meu fim
nada trava os meus rios a não ser a fusão
desejada
com a imensidão cheia de segredos. meus. deles. do mar
do nosso amado mar
que também não dá contas a ninguém
enfurece-se e inunda. ou dá paz ao olhar. numa praia. de inverno
a chuva de quase verão lavou os caminhos sujos. há limpidez de novo. há primavera na transparência com que olho e vejo a vida. a minha vida. o tal quase final dela.
Fall_River by David Halpern... mas os rios correm e não param ao gosto da indiferença. essa, com a inveja irão parar ao esgoto da humanidade e tal como os rios que nos correm serão, em breve, nada na imensidão do mar.
afinal é de água que sempre falo aqui. esgotos e rios têm o mesmo fim. o mar.
o mar.
o Mar!
- quem te falou de ter? nunca nada foi teu. busca as palavras simples
nada mais te compete no percurso que te cabe na terra, ao tempo que te sobra.
tento entender. palavras. esqueci tantas. de propósito. e nada mais me sai:
- ignorem o Papa, o Vaticano inteiro! rezem ao ar livre sempre, de frente para quem chegar!
não virem as costas a nenhum ser vivo da terra se pensam em Deus e em falar-lhe.
ninguém os ouvirá e receberão em troca os "vendavais" de "quem semeia ventos"
mas que o que foi passado me perdoe se for isto pecar, enquanto se chamar vida ao que desde há pouco, de novo sonho e sinto, não desisto de amar.
thirsty by Dario Menascedescendo rios. saltando rio em rio
adormentei a dor das palavras guardadas
deitei sangue da alma. avermelhei a água
nada passa se não for resolvido
e as sangrias já estão ultrapassadas
na arte benfaseja de curar
vivi mares na idade dos lagos
mais tarde afundei poços. fui atirada lá
as palavras palpitavam-me as veias
não era dentro a mim o seu lugar
nem libertado o sangue elas saíam
colavam-se-me às células do cérebro
as palavras querem ser pronunciadas
alivio as que se libertaram
sofro as que insistem em não me abandonar
as palavras que a ti nunca direi
navegam rios comigo e alastrarão no mar
acabarão nas praias como história
como história. não como mais histórias
image by Santiago Caamaas palavras ganharam vida própria
são elas rios agora a transbordar.