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15/01/2009

corredores de frio

cold hands by yv


estendo. ao tempo. as mãos frias


estão vazios os corredores. de mim

nem ecos de passos dados. só a chuva

que perfura. hoje. a terra toda

em fúria fecundante. se ouve. açoitar o solo

a fazer vida para o futuro. a trazer luz

no verde molhado. nas pedras lavadas

no ar respirável. outra vez


mas reina o silêncio nos corredores

para que caminhar?



ficam estendidas. no tempo. as mãos vazias

frias


na espera de nada. no longe de ti

02/12/2008

"bife da vazia"

by Jordi AC


já corre livremente a água pelas encostas.

os animais saem dos abrigos ao primeiro raio de sol. o pão não vem com a chuva. cresce dela.


também é essa a hora de predar. os mais fortes. ou não? os mais astutos. movem-se sorrateiros na esperança de fragilidades outras ou dos outros. são os carníveros. grandes senhores da vida ensanguentada de carne tenra. seja o bife da vazia mal passado ou a ave em voo titubeante que lhes caiu nas garras. num golpe de asa a nunca terminar.


a época da chuva é no entanto boa. lava. lava a mente de se saber tudo isto e disto nos atormentar o sono e embaciar o olhar.


há quem lhes escape. ao abrigo dela. há quem saiba escorregar devagarinho pelas ladeiras de lama ou neve até se afastar. de vez. das enormes bocarras. sempre abertas. prontas a devorar.


só não há água que lave os cantos ensanguentados da boca dos carníveros. o sangue congelou ao escorregar dos beiços salivantes de gula. e mancha de sangue sempre foi uma nódoa difícil de tirar.


24/11/2008

estação



vesti-me a rigor para a entrada mágica

do Outono

queria a languidez da morte. prevista ansiada

que todos os anos antecede o gosto

de se renascer

vesti-me a rigor com as cores quentes

feitas de folhas quase a decompor

de frutos deixados no lugar de flores



depois flutuei na beira do rio

folha-eu caída de dentro de mim

sem temores de morte. é isso o outono. a renovação


a chuva não veio. o rio não encheu

serão as estações que estão a mudar?

ou nesta estação que tanto anseei. para a qual me vesti de folhas e frutos

termino eu?





images by Al Magnus

25/10/2007

confissão


image by Mark Townsend

devia haver entre nós olhar de pedra. devia haver e há. mas há também a água que surge aos olhos quando nos cruzamos e torna a pedra doce. coisa de rebuçado para criança. lá ficamos sem jeito. a inventar palavras para cobrir o tempo desse estar.

água a bater nas pedras. a amolecer as pedras que usamos como olhos ou pensamos usar. sabemos não poder olhar no fundo. lá para dentro é a alma. jogo das cinco pedrinhas. jogo de perder e de ganhar. já passámos por isso. conhecemos o risco de jogar. jogadores veteranos brincamos um com outro. provocação de infâncias tão passadas mas vivas como as cores do outono que esvoaçam à nossa volta já.

image by Moore Reef

acabou de chover. o ar está limpo. os olhos estão limpos mas olham em direcções diferentes e, se se cruzam, pregam-se logo ao chão. nenhum se quer mover dali e temos de. nenhum se quer calar pelo perigo disso e falamos de nada. por falar. rimos. temos de rir. ou caímos nos braços um do outro com o mundo a girar-nos em redor até nos despenharmos de vertigem na cama avermelhada do outono. mais quente ainda do que sol de agosto.

irra, confesso que seria um gosto!

24/07/2007

hoje-agora-logo

photography of QT Luong


hoje. naquela hora. a hora incerta e certa por adivinhada em antecipação de alvoroço infantil. sem a saber. sem a poder saber. naquela hora. hoje.

hoje como um cheiro forte de terra na mistura de chuva sobre feno a arder em planície argilosa. como um jorro impetuoso de rio descontrolado na queda de um rochedo. como uma mão a subir-me no corpo. invisível

hoje o cio sobreveio.

mordi-o nos lábios entreabertos quase até sangrar (vagamente sorria. sou assim. oriental de espírito. celta de corpo).

engoli o cio na saliva lembrada, ainda húmida a invadir-me a boca. a penetrar-me num orgasmo inventado ao nosso jeito. teve de ser assim naquela pressa toda de conseguir, em minutos, anos de desejar.


photography of QT Luong

- olá

- olá

como se não soubessemos falar como se balbuciássemos. como quem pede água pela primeira vez à mãe numa infância primeira.

e sabemos falar? e queremos isso?

afasto-me. saio para longe num adeus costumeiro. o rio-cio parece calmo agora. parece. as correntes de superfície enganam muito quem não conhece rios e, não há rios iguais.

15/07/2007

manta de água

image by Hervé Mitko


enrolo-me na manta do silêncio. sabe bem recordar. dias de chuva ou seca. brincadeira de ar livre. brincadeira sim, que os pobres também brincam. brincam por vezes mais, com imaginação. fazem barcos à vela com os lenços das mães para navegar nas poças de chuva. rios de chuva a correr para o mar.

onde nos desencontrámos nessa idade? nascemos em datas erradas. errados tempos. até os tempos jogaram contra nós. mas não o tempo. esse acabou por juntar-nos.

tarde? cedo? a tempo ainda de viver a dor.

silence by Monika Brand

é agora o silêncio o que mais fala.

vivemos de silêncios por dever de vida. assim continuamos rio adentro, correndo para a morte.

e no entanto oiço tão nítida em mim a tua voz. és uma luz audível. colorida como um lírio do campo em antecipada primavera.

voz de lírio ensinaste-me a luz perdida em desencantos. em carência de amor até chegar o teu.

aconchego ao corpo a manta de água. aconchego-te a mim. água de vida.