um estranho agrediu-me. um puro estranho.
espantou-me aquele ódio de marginal. mais que a dor na cabeça. da pancada. ainda me espanto. eu. coisas de quem passou por outros tempos e não está para se habituar a estes.
calcei os ténis e com uma amiga, fomos até à montanha. lavar a cabeça de gente. nem um cantil levámos. sabíamos que no topo havia uma nascente. de água pouca mas límpida e corrente.
pelo caminho quase não falámos. a minha amiga mais por temperamento. eu por me martelar no cérebro a palavra miséria.
os que têm fome. da real . da física. dirão: - na miséria vivo eu.
estão enganados. vivem com a falta do essencial para sobreviver mas a dignidade permanece. ainda que em justa revolta e inacreditável sofrimento.
mas miserável é quem não sabe o seu lugar na vida. quem perdeu os princípios e se orgulha disso. quem pensa ter todos os direitos. porque sim. quem ostenta o que tem na frente de quem não o poderá ter. como quem acena com um pão a um esfomeado e lhe dá uma gargalhada em vez do pão. ou caso dê a sandes que levava para o caminho curto, corre a alardear - eu dei! eu dei! olhem como eu sou bom. batam-me palmas. sou rei.
e é. rei desta selva.
leão preguiçoso que só caça para si e depois ruge. como se isso fosse um feito assinalável.
rei da miséria. é.
chegadas à fonte saciámos a sede. de água e esperança.
- esquece isso. já não muda. pega numa borracha e apaga-o. ou então segura numa pedra. pensa nele. passa a tua energia de frustração e raiva para a pedra e atira-a à água. ficará no fundo. depois viramos costas.
deixámos a miséria para trás. essa miséria.
fiz o que a minha amiga sugeriu. fiquei tão leve!
há caminhos de areia para ir buscar água pela manhã. não volto aos caminhos de pedra.
há tanta gente com sede e eu conheço muitos rios e fontes e nascentes. tenho de os ensinar.
descemos a correr e, a sorrir!
rei da miséria. é.
chegadas à fonte saciámos a sede. de água e esperança.
- esquece isso. já não muda. pega numa borracha e apaga-o. ou então segura numa pedra. pensa nele. passa a tua energia de frustração e raiva para a pedra e atira-a à água. ficará no fundo. depois viramos costas.
deixámos a miséria para trás. essa miséria.
fiz o que a minha amiga sugeriu. fiquei tão leve!
há caminhos de areia para ir buscar água pela manhã. não volto aos caminhos de pedra.
há tanta gente com sede e eu conheço muitos rios e fontes e nascentes. tenho de os ensinar.
descemos a correr e, a sorrir!

9 comentários:
..."há tanta gente com sede e eu conheço muitos rios e fontes e nascentes. tenho de os ensinar."
Certamente.Passar os conhecimentos é a melhor e mais rica herança.
Obrigada pela visita
Suzana
Poética sem Métrica
Eu também acredito nisso, Suzana. Mas nese mundo materialista, toda a gente parece ter nascido a saber tudo e, sobretudo, deseja outras heranças.
Obrigada. Bjs
Reler-te é bom, depois de tanto negro e sombra e água fechados no olhar. Espero que os teus olhos se aguentem, minha querida: tem cuidado contigo!
Não sei é metáfora a agressão??? melhor seria se fosse: toda esta raiva "mal dirigida" me assusta e confrange a alma; porque continuo a ver "os maus" vivendo em balofa impunidade.
Bjinho
Olá Bettips, houve agressão sim, mas não física. Não deixa no entanto de ser um sinal destes tempos impunes e absurdos.
Talvez se eu já fosse dependente tivesse sido física. Não posso deixar de pensar nisso...
Mas vamos lá correndo pela areia e... sorrindo.
A Vida dá muitas voltas e, tudo o que de bom e mau se atira para o Universo recebe-se em Triplicado. Eu já recebi a minha dose, de bom e de mau.
Os outros... que não se distraiam.
Bejos, Amiga.
Fernando Pessoa tem uma quadra ao gosto popular que diz:
Não há verdade na vida
Que se não diga a mentir.
Há quem apresse a subida
Para descer a sorrir.
...
Fazes bem em não regressar aos caminhos de pedra: já conheces os outros, ensina-nos os seus segredos.
Beijo.
António
Boa citação, A Tapadinhas. :)
Aprendemos os caminhos brandos muitas vezes só depois de grandes "pancadas na cabeça".
Ensinar pode ser um expressão forte demais para mim mas, contar dos caminhos, isso farei.
Obrigada. Bjs
*
como te compreendo . . .
eu não mudo, continuo a ser eu,
vou pelos caminhos que quiser,
de pedras, de espinhos, de areia,
de marmore, passadeira vermelha,
porque não, do calvário, o certo...
,
só me ofende quem eu quizer e sei
que há caminhos não andados que esperam por alguem, por mim ?
e acredito no verdadeiro francisco
de assis,
dar de beber a quem tem sede,
dar de comer a quem tem fome,
a sede de tudo . . .
a fome de todas as coisas . . .
,
não sou do tempo ?
como o tempo não existe... olha ...
,
conchinhas atempadas
,
*
posso ficar com uma gargalhada para mim?
posso?
vá lá!
[como os miúdos]
.
um beijo
Beijos POeta. Obrigada. :)
Gabriela. Ri. Sonoramente. :)
Bjs
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